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sábado, 21 de setembro de 2013

Resenha do filme "Elysium"



Em mais um roteiro extremamente politizado e cheio de questionamentos, Neil Blomkamp (que escreveu "Distrito 9") leva o espectador a um futuro caótico, onde ricos vivem extremamente bem e com acesso à serviços médicos e os pobres ficam marginalizados, da mesma forma como ocorre nos dias de hoje, porém no ano 2154. Wagner Moura divide bem uma grande atuação com Matt Damon, onde ambos se destacam.

Neste futuro, a Terra está muito poluída e caótica, o que fez com que fosse construída uma estação espacial para os ricos manterem seus padrões de vida. "Elysium", inspirada em modelos de estações espaciais da Nasa dos anos 1970, é o lugar onde nada pode dar errado.

Max (Matt Damon) é um homem com um passado cheio de crimes, e  é amigo de infância de Frey (Alice Fraga). Quando vira um trabalhador comum, sofre um acidente: Ele precisa urgentemente de um tratamento médico que só é possível em Elysium. É aí que ele vai até o "coiote" Spider (Wagner Moura), que tenta constantemente enviar gente humilde para a estação espacial, para elas tentarem ter acesso a um tratamento médico melhor e mais digno do que os da grande favela que virou Los Angeles. O personagem de Moura propõe uma barganha: quer que Max consiga extrair as informações do cérebro (!) de um grande executivo para então enviá-lo à Elysium.


Para encarar tal missão, Max recebe uma espécie de exoesqueleto biônico, o que lembra bastante o que ocorre com Alex Murphy em Robocop (será que esta semelhança foi proposital?). Ele precisa mesmo de toda força para encarar o antagonista da história, o completamente insano Kruger (Sharlto Copley), que persegue-o a mando da secretária de defesa de Elysium, Rhodes (Judie Foster, em uma bela atuação como vilã). No meio deste entreveiro, a paz dos ricos da Estação Espacial começa a ser quebrada, em um conflito social não muito diferente do que ocorre constantemente no mundo atual.


Há várias referências ao ótimo filme Distrito 9: Os robôs policiais são semelhantes aos aliens do referido filme, a Los Angeles futurista parece-se com os guetos do outro trabalho famoso de Blomkamp e há até uma bandeirinha da África do Sul em uma das naves que aparecem na história.




A película mistura bem uma pesada crítica social, onde poucos têm acesso à tratamentos médicos e benefícios, enquanto outros sofrem com muito pouco, com as cenas tradicionais de ficção científica Quando estes atingem o mundo "blindado" dos primeiro, as coisas ficam bem interessantes.

Trailer:

Um comentário:

A.H.B. disse...

Então, eu gostei do filme, ele é legal e creio que provoque o público americanos menos politizado, nem que seja por esfregar na cara deles vários sotaques latinos, muitos diálogos em spanglish (mesmo o protagonista, era um latino branco: o nome dele era Max da Costa) e dois atores brasileiros em papéis grandes (Wagner e Alice, ambos muito bons em seus papéis).

Fora isso, o primeiro problema foi a questão de gênero no filme, que não foi tratada em geral. (acho engraçado que filmes de hollywood se revezam, se eles acertam em gênero, evitam elencos multiculturais, e se acertam na questão racial, deixam a desejar em termos de gênero). A personagem da Alice é uma "donzela em perigo", foi torturada e ameaçada de estupro gratuitamente mais de uma vez. A Judie Foster teve uma personagem mais interessante nesse aspecto, mas ela era a vilã e não tinha como ter empatia pela personagem dela. Fora isso, achei que teve uma ausência de mulheres lutando pela socialização da medicina, elas aparecem como figurantes e geralmente caracterizadas ou como mães desesperadas ou dondocas flutando em suas piscinas.

Outra coisa que fiquei pensando sobre o filme foi a definição de Estado no ponto de vista dos roteiristas. O Estado são aqueles que detém a capacidade de repressão, segundo o filme. O sistema político daquela sociedade é também completamente informatizado, o que elimina a necessidade de legitimidade (embora exista um presidente). São os robôs que fazem 100% do trabalho braçal em Elysium? (principalmente a construção civil) Que tipo de riqueza a população na Terra gera, eles fabricam robôs, mas aparentemente a maior parte da população está desempregada? Faço esses questionamentos porque acharia interessante um filme de ficção cientifíca que desenvolvesse aspectos políticos e econômicos de uma sociedade, de forma a criticar a sociedade corrente. Ainda assim, o filme incmodou a direita, então é um começo.

Aliás, a cena do Max trabalhando em uma fábrica que produz os robôs policiais é interessante, tem uma cena semelhante no filme de ficção científica In Time, que não recebeu tanta atenção no cinema, mas apresenta algumas noções de marxismo ao telespectador.

Gostaria que tivessem desenvolvido mais a gangue do Spider. Eles eram mafiosos interessados em lugrar com o desespero e a miséria, mas de repente parecem interessados em mudar o sistema.

É também interessante a relação que o filme faz entre cidadania e direitos sociais (acesso à saúde, por exemplo), que se inspira bastante na análise sobre os modelos de bem-estar social no capitalismo por Esping-Andersen.

Achei que a questão de luta social, embora presente, se perca um pouco quando toda a solução é colocada na figura do Max, que é descrito desde o começo do filme como "predestinado" a fazer algo. Achei que a predestinação era desnecessária e apela para a ideologia liberal hegemônica que acredita na história das vontas individuais, ao invés da ação de forças históricas mais amplas e coletivas.

Gostei da critica ao exército americano. A figura do veterano é raramente criticada no cinema americano, então foi importante a maneira como o personagem do Sharlto Copley foi representado como um psicopata insano (só achei exagerado terem mostrado ele ameaçando a Alice Braga de estupro, já haviam falado que estva na ficha dele, não precisava mostrar). A melhor cena do filme, para mim, foi quando o Kruger e os outros militares tentam impedir que o Max e a gangue do Spider sequestrem o empresário, porque a atitude deles durante a cena (atitude juvenil, dedo do meio, etc) é muito similar a vídeos fazados de soldados americanos fazendo merda em países que sofreram ocupação militar. Posteriormente, a tentativa de golpe deles também evoca ao fascismo.

Sobre referências à África do sul, o sotaque do Kruger era sul-africano.