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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Máfia cristã’ dos EUA teve relações com ditadura no Brasil, diz pesquisador americano
Um poderoso grupo formado por fundamentalistas norte-americanos, conhecido como “A Família”, foi responsável pela mediação de acordos entre o governo dos Estados Unidos e a ditadura militar estabelecida no Brasil entre 1964 e 1985. A informação foi divulgada pelo pesquisador norte-americano Jeff Sharlet, autor do livro “The Family”, um best-seller sobre o grupo também conhecido como ‘a irmandade’, ou ‘máfia cristã’. Segundo ele, o grupo inclui membros do Congresso, líderes de grandes corporações, militares e políticos estrangeiros.
Conversei com Sharlet sobre sua pesquisa e o livro, logo que foi lançado. Ele disse que a “Família” viu os militares brasileiros como “pessoas-chave” no que consideravam luta contra o comunismo ateu no Brasil. Segundo ele, os brasileiros, por sua vez, viram nos “irmãos” a possibilidade de acesso ao poder dos EUA. “Chegou a haver discussões sobre o estabelecimento de um escritório formal da ‘Família’ na embaixada brasileira nos Estados Unidos, o que eles achavam que ajudaria a imagem do movimento”, disse Sharlet. “Eu sei que há relações entre a ‘Família’ e o Brasil até hoje, mas não posso entrar em detalhes porque não investiguei aprofundadamente”, completou.
Ele argumenta ter encontrado registros dessas relações, ocorridas nos anos 1960 e 70. “Na época dos governos de Costa e Silva e Médici, os EUA ajudavam financeiramente os militares que estavam no poder no Brasil, e a Família era o principal intermediário desses acordos.” Segundo ele, os fundamentalistas se aproximaram dos militares, já que achavam que o modelo proposto pelos ditadores do Brasil era parecido com o que eles queriam incorporar.
Artur da Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici foram dois militares que governaram o Brasil após o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart em 1964. Costa e Silva foi presidente do Brasil entre 1967 1969, e Médici administrou o país entre 1969 e 1974, período após o Ato Institucional número 5, apontado com frequência como o mais repressivo da ditadura. A sucessão de governos militares iniciada em 1964 chegou ao fim quando José Sarney assumiu o poder em 1985.
Apesar de formado especialmente por fundamentalistas cristãos protestantes, o grupo, segundo Sharlet, não assume abertamente o tom religioso, se dizendo formado por “believers” (crentes). “Foi um momento em que viram que havia lideranças no mundo com quem valia manter relações independentemente da religião, já que havia um acordo em torno da influência norte-americana, no livre mercado e fundamentalismo.”
Segundo ele, há registro de que um líder da “irmandade” teria agradecido ao saber que a Câmara dos Deputados do Brasil havia estabelecido uma sala permanente para encontros de brasileiros afiliados ao grupo fundamentalista dos EUA. Um dos norte-americanos teria alegado que o Brasil seria a base de operações da “Família” em toda a América Latina.
Império
Em “The Family: The Secret Fundamentalism at the Heart of American Power” (A Família: O fundamentalismo secreto no coração do poder norte-americano), Sharlet, que é pesquisador de religiões e mídia na Universidade de Nova York, descreve o funcionamento e a estrutura deste grupo e analisa a presença do fundamentalismo e da direita cristã na política dos Estados Unidos. Segundo ele, há uma certa complicação nas bases ideológicas do grupo, que tem forte influência religiosa e pretensões imperiais. Atuante no país há sete décadas, o grupo é apontado como já tendo uma força considerável.
“Eles não estão buscando conquistar o país, nem vão conseguir, mas é importante ver onde eles estão agora. Eles estão envolvidos com o poder e são a razão pelo qual os Estados Unidos não conseguem ter um movimento trabalhista forte, ou ter um sistema de saúde mais abrangente. Eles têm o objetivo final de reunir 200 líderes mundiais em torno de um laço invisível e fundamentalista, mas na verdade, a ‘Família’ é um grupo que acredita na religião do status quo, da influência norte-americana, do capitalismo típico, fundamentalista e de mercado”, explicou.
Segundo ele, entretanto, isso parece estar trabalhando contra os interesses do país, mesmo sob o governo Obama, que é progressista. “Trata-se da diferença entre democracia e império, e a ‘Família’ é uma família que busca o império.”
Máfia
Sharlet não faz acusações diretas sobre ilegalidade na atuação do grupo fundamentalista, mesmo quando o compara à atuação da máfia. “Alguns congressistas e membros da ‘Família’ se deram o título de ‘máfia cristã’”, disse. Segundo ele, é um termo usado por eles mesmos de forma simpática. “É um grupo que diz abertamente que é como a máfia, uma organização bem estruturada, em busca de poder, e eles gostam dessa ideia.”
“É mais de que uma figura de linguagem, especialmente quando se vê a forma como são controladas as finanças do grupo. Assim como a máfia, há empresas de fachada, a maior parte sem fins lucrativos, usadas para movimentar o dinheiro deste forte grupo econômico e político pelo mundo.” Segundo ele, não se pode falar nada sobre este grupo porque não houve uma investigação mais profunda sobre isso, mas “se fosse algo organizado pela máfia, isso seria chamado de lavagem de dinheiro.”
Terra
quinta-feira, 31 de março de 2011
Sobre o criminoso golpe da ditadura militar de 1964
A mentira de 31 de março de 1964
No dia 1º de abril de 1964, a conspiração que uniu as altas esferas do empresariado brasileiro, os latifundiários, os chefes militares, a hierarquia católica conservadora e agentes do imperialismo dos EUA depuseram o presidente constitucional João Goulart e deram início à ditadura militar que marcou as duas décadas seguintes pelo sangue dos patriotas e democratas, pela destruição da democracia e do estado de direito no Brasil.
Desde aquele dia inaugural da ditadura, a data que tem sido lembrada é a da véspera, 31 de março, pela folclórica razão de que, sendo o 1º de abril o dia da mentira, o golpe militar se tornaria alvo de chacota entre o povo.
O 1º de abril teria sido o dia mais indicado para lembrar aquele episódio nefasto. Era mentira que os golpistas defendiam a democracia, como alegavam; não era verdade que defendessem a soberania brasileira nem o desenvolvimento do país.
Contra a democracia, rasgaram a Constituição, instituíram a legislação de exceção que permitiu a cassação de direitos políticos e democráticos e de mandatos eletivos, no esforço de eliminar do cenário político parlamentares, sindicalistas, democratas, patriotas, lideranças de trabalhadores e do povo, que não aceitavam o arbítrio da ditadura. O rosário de assassinatos, tortura, prisões ilegais, exílio e outras formas de opressão contra os que resistiam à ditadura é conhecido e o preço pago em sangue pelos brasileiros é irresgatável e inegociável.
Diziam que defendiam a nação contra a ameaça representada pela URSS e pelos comunistas no Brasil. Mas quem humilhou o país e desrespeitou a soberania nacional foram os generais e as classes dominantes que, com completo apoio da embaixada dos EUA, deram o golpe militar. Basta lembrar o discurso pronunciado pelo general Castello Branco, na sede do Itamaraty, em 31 de julho de 1964, onde o principal líder da conspiração golpista e então primeiro ocupante militar da Presidência da República defendeu a tese antinacional do alinhamento automático com os EUA com a consequente limitação da soberania brasileira.
Em relação ao desenvolvimento, naquelas duas décadas a economia realmente cresceu. Mas não foi um desenvolvimento nacional: a internacionalização foi aprofundada como nunca, a dependência tecnológica foi agravada pela opção do crescimento com base em empresas estrangeiras, a distorção na distribuição de rendas e no agravamento dos já agudos problemas sociais foi gigantesca. A modernização conservadora do campo expulsou multidões para as periferias das cidades, onde o desemprego, a baixa renda e as precárias condições de moradia, educação e saúde formaram o caldo de cultura onde viceja a violência e a insegurança.
Do ponto de vista institucional, uma herança perversa e insepulta da ditadura militar é a impunidade da violência policial, que torna a polícia brasileira uma das mais violentas do mundo, com sua atuação marcada pela tortura como forma rotineira de investigação e a morte de suspeitos como uma prática cotidiana.
O que há a comemorar? Bem fizeram os atuais comandantes militares que, pela primeira vez em 47 anos, retiraram a lembrança do golpe de 1964 de sua agenda de comemorações, gesto simbólico do sentimento democrático que anima a nova geração de chefes militares.
A velha geração continua saudosa do poder irrestrito e irresponsável que exerceram naqueles anos de atentados contra a democracia e os democratas, como mostra o manifesto comemorativo divulgado pelos clubes Militar, Naval e da Aeronáutica, saudando o rompimento da democracia e a manutenção e agravamento de uma ordem injusta rejeitada pelos brasileiros e apoiada apenas pelas elites proprietárias e por seus aliados imperialistas.
Foi o regime da tortura e do assassinato político e seus remanescentes usam o prestígio que ainda lhes resta para acobertar aquelas práticas ilícitas e desumanas rejeitando qualquer investigação daqueles crimes e opondo-se à formação da Comissão da Verdade para revelar à nação o rio de sangue que correu no país nos anos em que estavam no poder.
O golpe militar de 1964 é um fato da história que os brasileiros lamentam e não aceitam mais. A democracia brasileira se fortalece, apesar dos resmungos das viúvas da ditadura. E, hoje, a melhor maneira de lembrar aquele passado é homenagear os heróis da resistência, os patriotas, democratas, socialistas e comunistas que nunca aceitaram a mentira da ”Redentora” e verteram seu sangue pelos direitos do povo e dos trabalhadores e pela soberania da Pátria. Estes não podem ser esquecidos jamais.
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