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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Um passo para a cura do câncer



Um dos grandes obstáculos no tratamento do câncer, principalmente em seus estágios terminais, quando as metástases já se espalharam pelo corpo, é matar os tumores sem, no entanto, matar o doente antes. As altas doses de radiação ou quimioterapia necessárias para eliminar as células tumorais também atacam as saudáveis, debilitando os pacientes a um ponto em que seu organismo não consegue mais funcionar. É algo como tentar regar um vaso com uma mangueira de incêndio: a água em excesso acaba por matar a planta. Agora, porém, cientistas da Universidade de Michigan descobriram um mecanismo biológico capaz de proteger o trato gastrointestinal dos danos das terapias e mantê-lo em funcionamento, aumentando exponencialmente as chances dos pacientes sobreviverem a quantidades normalmente letais de remédios ou radiação.

- Acreditamos que isso eventualmente vai permitir a cura do câncer mesmo em estágio terminal. Se nossas previsões estiverem corretas, as pessoas não vão mais morrer de câncer – afirma Jian-Guo Geng, professor da Universidade de Michigan cujo laboratório foi responsável pela descoberta, publicada em artigo na edição desta semana da revista “Nature”. - Todos os tumores em diferentes tecidos e órgãos podem ser eliminados por altas doses de quimioterapia ou radiação, mas o desafio atual no tratamento do câncer em estágio terminal é que na verdade matamos os pacientes antes de matarmos os tumores. Mas agora temos uma maneira de fazer com que os pacientes tolerem doses letais de quimioterapia ou radioterapia. Dessa forma, o câncer pode ser erradicado com crescentes doses de ambas.

Geng e sua equipe descobriram que certas proteínas se ligam a moléculas específicas nas células-tronco intestinais, responsáveis por naturalmente reparar danos nos órgãos e tecidos locais, fazendo com que elas se multipliquem rapidamente. Quantidades normais destas células não conseguem fazer frente ao estrago causado pelas doses maciças de remédios ou radiação capazes de eliminar o câncer metastático, mas com seu exército reforçado o trato gastrointestinal pode continuar em operação. Isso permite que o corpo dos pacientes continue a absorver nutrientes e a realizar outras funções ao mesmo tempo em que impede que as bactérias presentes no intestino invadam a corrente sanguínea, o que, diz Cheng, dá a eles maiores chances de sobreviverem a doses cada vez maiores dos tratamentos até que os tumores sejam erradicados.

No estudo, feito em camundongos, 50% a 75% dos animais que receberam as proteínas toleraram quantidades de quimioterápicos que de outra forma seriam letais, enquanto nenhum dos camundongos do grupo de controle, que ficaram sem as proteínas, morreram. Cheng destaca, porém, que o método ainda não foi testado em humanos, então não há como saber se o trato gastrointestinal das pessoas seria preservado como o dos animais. Além disso, diz, mesmo que no futuro o tratamento se prove eficiente em humanos, ainda seriam necessários pelo menos dez anos para ele ficar disponível para uso nos hospitais.

- Por enquanto, encontramos apenas uma maneira de proteger os intestinos de camundongos – reconhece. - Nosso próximo passo é atingir uma taxa de sobrevivência de 100% dos animais que tiveram as proteínas injetadas e receberam doses letais de quimioterapia e radioterapia.


O Globo

Um dos maiores problemas das neoplasias é que elas se tornam resistentes aos tratamentos muitas vezes, ao longo destes. Burlar a capacidade da doença "evoluir" também é uma das formas de tornar os medicamentos quimioterápicos mais eficazes.

Facebook quer ampliar publicidade em vídeo



Para romper o longo domínio da televisão no mercado publicitário, o Facebook planeja vender comerciais em vídeo, no estilo da TV, em seu site. Os anúncios serão veiculados por US$ 2,5 milhões diários. A informação foi revelada ontem pela agência Bloomberg, que diz ter ouvido fontes envolvidas no assunto.



As ações da rede social fecharam o dia em alta de 6,2%, a US$ 37,63 cada, maior valor desde a abertura de capital em maio de 2012, quando valiam US$ 38. Durante o pregão, elas chegaram a ser negociadas por US$ 37,96. Desde a divulgação do balanço do Facebook na semana passada, as ações da empresa subiram 40%.




Segundo a Bloomberg, a maior rede social do mundo, com 1,15 bilhão de usuários, pretende oferecer espaços para spots de 15 segundos para anunciantes a partir do fim do ano.

A iniciativa se segue a medidas adotadas por concorrentes para atrair os dólares de propaganda que tradicionalmente vão para as redes de TV. Nos últimos anos, o Google começou a financiar produtores de conteúdo no YouTube, oferecendo parte da receita com comerciais veiculados nos vídeos

Quanto ao Facebook, a ideia é tirar o máximo proveito dos milhões de usuários que checam o site diariamente, incluindo durante o horário nobre cobiçado pelos anunciantes na TV. No último trimestre, 61% dos usuários do Facebook entraram no site diariamente - número que aumentou apesar das previsões de queda.

"Toda noite entre 88 milhões e 100 milhões de pessoas estão ligadas no Facebook durante o horário nobre da TV, só nos Estados Unidos", afirmou Sheryl Sandberg, diretora de operações da empresa durante videoconferência para anunciar os resultados do segundo trimestre.

O Facebook não quis comentar o novo projeto de publicidade em vídeo.

Oportunidade. Embora a rede social já permita que anunciantes publiquem vídeos em sua página no Facebook, o novo serviço permitirá a eles inserirem anúncios de 15 segundos diretamente na lista de atualizações (feed de notícias) de um usuário. Esta é a duração mínima normal de um comercial de TV.

O espaço para comerciais inicialmente será vendido para um dia inteiro e os anúncios só poderão ser dirigidos para os usuários com base na idade e gênero, segundo as fontes. Os usuários do Facebook não verão o spot publicitário mais de três vezes num determinado dia. Dependendo do tamanho da audiência que se pretende alcançar, os preços dos anúncios podem variar de US$ 1 milhão a US$ 2,5 milhões por dia.

O presidente executivo e fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, tem trabalhado com a chefe de marketing global, Carolyn Everson, no serviço de anúncios em vídeo. Ele adiou a data de lançamento do serviço pelo menos duas vezes, para se certificar de que a experiência do usuário não será afetada pelos anúncios. Zuckerberg quer que os vídeos sejam em alta definição e que os recursos sejam fáceis de usar.

A iniciativa do Facebook deve intensificar a competição com o Twitter, rede social que também tem cortejado anunciantes de TV, numa aposta para chegar a US$ 1 bilhão de vendas de anúncios em 2014.




Estadão




Este tipo de publicidade invasiva irrita os usuários. Provavelmente vão surgir plugins para bloquear estas propagandas na linha do tempo dos usuários ou os mesmos irão migrar para outras redes sociais.

Coração artificial usa tecido bovino



Há tempos, os cientistas procuram desenvolver um coração artificial durável, que possa funcionar de maneira tão eficaz quanto o oferecido pela natureza. Tentando cumprir esse objetivo, uma empresa francesa produziu um coração artificial que utiliza tecidos bovinos e que, em breve, será testado em pacientes humanos.

As superfícies que entram em contato com o sangue humano nesse coração são feitas de tecido bovino, em vez de materiais artificiais como o plástico, que pode causar problemas como coágulos.

"O modo como eles incorporaram superfícies biológicas nos pontos que entram em contato com o sangue é realmente uma grande vantagem", disse o doutor Joseph Rogers, professor-associado na Universidade Duke em Durham, na Carolina do Norte, e diretor-médico de seu programa de transplante cardíaco e apoio circulatório mecânico. "Se eles acertarem esse desenho, poderão mudar o jogo, reduzindo a necessidade de remédios anticoagulantes."

Em desenvolvimento há 15 anos pela empresa Carmat, sediada em Paris, o coração foi aprovado para testes clínicos em centros de cirurgia cardíaca na Bélgica, na Polônia, na Arábia Saudita e na Eslovênia.

Na França, onde o dispositivo ainda não foi liberado para implantação em humanos, os reguladores exigiram mais testes com animais, que estão sendo feitos.

Esse é o primeiro coração artificial a usar derivados bovinos -especificamente, o tecido do saco pericárdico que envolve o coração dos animais. No passado, tecidos biológicos foram usados somente em válvulas de bombas de sangue mecânicas, disse o doutor Rogers.

O coração artificial pode ajudar pacientes que esperam na (vagarosa) fila por um transplante de coração definitivo, que deve vir de outro ser humano.

Por isso, um coração totalmente artificial para uso prolongado seria de grande valia, mas ainda é muito cedo para saber se o coração da Carmat, ainda não testado em humanos, será esse equipamento.

O custo do dispositivo da Carmat seria de aproximadamente US$ 200 mil, disse o doutor Piet Jansen, diretor-médico da empresa. Ele não espera que o produto seja posto no mercado europeu antes do final de 2014.

O coração da Carmat tem duas câmaras, cada qual dividida por uma membrana. Essa membrana tem tecido bovino de um lado, o que fica em contato com o sangue, e poliuretano do outro, que toca o sistema miniaturizado de bomba com motores e fluidos hidráulicos que modificam a forma da membrana. (O movimento da membrana empurra o sangue para o corpo.) A eletrônica e o software embutidos ajustam o ritmo do fluxo sanguíneo. Os pacientes podem portar as baterias em um coldre embaixo do braço ou em um cinto, entre outras opções.

O tecido bovino também é usado em válvulas cardíacas artificiais que foram criadas pelo doutor Alain Carpentier, cirurgião cardíaco e pioneiro em reparo de válvula cardíaca, que também é fundador da Carmat e seu diretor-científico. O tecido bovino é tratado quimicamente para que seja estéril e biologicamente inerte.

O equipamento é regulado por sensores, software e microeletrônica. Sua energia vem de duas baterias de íons de lítio externas.

O projeto e o desenvolvimento do coração também contaram com estratégias de testes aeroespaciais da Companhia Europeia de Defesa Aeronáutica e Espacial (EADS, na sigla em inglês), uma das apoiadoras da Carmat, disse o doutor Jansen.

Segundo o médico, uma das exigências do projeto do coração era que ele durasse cinco anos. A empresa vem fazendo testes de bancada para ver ele se consegue durar tanto.

A doutora Lynne Warner Stevenson, diretora do programa de cardiomiopatia e falência cardíaca no Hospital Brigham e Feminino em Boston, está otimista como o novo equipamento. "Eu aplaudo os pioneiros que o desenvolveram", disse.




Folha

Cientistas chineses usam urina para recuperação de dentes



Pesquisadores da China encontraram na urina humana a matéria-prima para a recuperação de dentes. Esta foi a origem de células-tronco usadas para a regeneração de pequenas estruturas dentárias, de acordo com trabalho recém-publicado na revista "Cell Regeneration Journal".



Os especialistas esperam poder desenvolver melhor esta técnica, criando uma maneira de substituir dentes perdidos. Outros pesquisadores, no entanto, alertam que ainda será necessário percorrer um longo caminho e superar desafios até chegar a este objetivo.



Em experiência feita com ratos, pesquisadores do Instituto Guangzhou de Biomedicina e Saúde alteraram células expelidas pelo sistema urinário para que se tornassem células-tronco. Depois de misturada a outros materiais orgânicos, as células foram implantadas de volta nos roedores. Em três semanas, elas apresentaram aparência e estrutura similares a de um dente. A consistência, porém, não era tão rígida quanto a de um dente natural.



Mesmo assim, os resultados foram comemorados pelos especialistas chineses, que acreditam ter descoberto uma opção viável de recuperação dentária. Entretanto, eles reafirmaram que é necessário realizar mais pesquisas até a possível regeneração de um dente humano.



Este método, porém, não é uma unanimidade. Outros especialistas ponderam que há pouca eficiência e elevado risco de contaminação por bactérias. Entre eles, está Chris Mason, da University College London. Em entrevista à BBC, ele também ressaltou que ainda é preciso ter certeza de que a técnica de regeneração realmente crie um dente permanente.


Jornal da Ciência

Este robô da Veebot consegue extrair seu sangue



Algumas pessoas são campeãs em ter o sangue drenado de seus corpos, tanto que voltam aos centros de doações sempre que podem — parabéns a você, de verdade! Se for o seu caso, temos boas notícias. Se não, deve estar receoso com a ideia de estar próximo a um robô munido de uma agulha. Mas, acredite: é bem capaz que o robô seja uma saída menos… dolorosa.

Uma startup chamada Veebot está testando um protótipo de robô que, eles esperam, fará a coleta de sangue ser mais rápida e precisa que a feita por humanos. A meta é automatizar tanto a coleta, quanto as inserções intravenosas para tornar o processo ainda mais padronizado e, com isso, reduzir as complicações. O robô tem um torniquete similar àquela bolsa que prende o braço nos equipamentos que medem a pressão arterial, a fim de deixar as veias do paciente proeminentes. Ele usa luz infravermelha, uma câmera especial e ultrassom combinados com um software de análise de imagens para escolher uma veia e confirmar se há sangue o bastante fluindo por ela. Depois disso, o robô prepara a agulha e a espeta no braço até uma profundidade pré-calculada. O processo todo leva cerca de um minuto, mais o tempo para coletar o sangue — que varia dependendo da sua destinação.

No momento o Veebot consegue escolher a melhor veia em 83% dos casos, o que bate com a média de um enfermeiro médio. A empresa diz que trabalhará para chegar a taxas de 90% antes de entrar em testes clínicos. Ainda que trocar um humano por um robô não diminua o medo de agulha que muitos de nós temos, quanto menos espaço para erros, melhor.


Este invento pode ser útil em zonas de calamidade em geral e de guerra, para otimizar o tempo de atendimento dos pacientes. Também seria interessante se o processo fosse melhorado a ponto de permitir uma análise do sangue através de um sistema computadorizado, enviando rapidamente o resultado para o médico.




terça-feira, 30 de julho de 2013

Resenha do filme "Uma noite de Crime" (The Purge)



Em um mundo onde banaliza-se cada vez mais o uso de armas de fogo e a indústria armamentista tenta cada vez mais fazer proselitismo para que qualquer um tenha seu revólver, o filme "Uma noite de crime" chega em boa hora.
Na trama, os EUA foram tomados por uma grande onda de criminalidade e as prisões do país estão com lotação esgotada. Para tentar conter ocorrências, anualmente o governo estabelece um único dia em que todo e qualquer crime é permitido.



O personagem principal, James Sandin (Ethan Hawke ), é habitante de uma comunidade murada que tenta se proteger da onda de violência. O mais irônico é que ele, o protagonista, vende equipamentos de segurança. Quando um invasor entra no isolamento, porém, Sandin tem que proteger sua família durante o período da permissão, sem cair na tentação da violência legalizada. Este estranho entrou em sua casa porque seu filho viu o mesmo sendo perseguido na rua e, com boas intenções mas imprudentemente, desabilitou o sistema de segurança da casa para ele entrar, o que não foi uma boa escolha.
Vários debates filosóficos são travados durante a história: Os personagens vivem se questionando se deve-se ou não matar para sobreviver, sobretudo a esposa do protagonista, Lena (Mary Sandin).  A película prende a atenção do espectador durante sua hora e meia (aproximada) de duração, fazendo quem assiste torcer para algumas situações tensas se resolverem logo.


Trailer:

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Quebrar imagens religiosas não auxilia em nada a luta por direitos iguais



Durante a Jornada Mundial da Juventude, houve no Sábado simultaneamente em Copacabana uma "Marcha das Vadias", que luta pelos direitos das mulheres à terem acesso ao aborto, à contraceptivos e mais respeito em geral na sociedade. A marcha em si é bastante válida e não discordo do direito das mulheres.
Porém, durante o evento, um grupo de manifestantes quebrou algumas imagens religiosas, talvez para chocar os peregrinos católicos (veja aqui a matéria).

Há uma diferença entre se manifestar e fazer isso. Qual a intenção de quebrar imagens religiosas? O que vão conseguir? Mudar a opinião da Igreja ou dos católicos conservadores? Ou apenas angariar antipatia?
Qual a diferença entre isto e agir como um fanático religioso?

Como querem conquistar respeito dos católicos moderados (que eu acredito que hoje sejam a maioria) e da sociedade em geral, passando esta mensagem de intolerância? Sei que foi uma minoria que realizou este ato e muitas mulheres até tentaram apartar a situação, mas o grupo que agiu acabou atrapalhando a manifestação e infelizmente dando mais corda para o discurso "puritano".


Algumas pessoas usaram a seguinte comparação: "A Igreja Católica reprime as mulheres em uma série de coisas, logo é justificável que quebrem imagens religiosas". Não, uma coisa não justifica a outra. Erros não justificam outros erros. Esta é o velho erro de lógica (falácia) tu quoque. Ex.: Fulano foi abusivo, logo eu também posso ser.

Com certeza o grupo "Católicas pelo direito de decidir", que apoia o feminismo, não gostou deste ato. Para os católicos, imagens da Virgem Maria e tantas outras possuem um grande valor sentimental. Qualquer pessoa, mesmo que descrente no catolicismo, sabe disto.
Tenho certeza que se algum movimento destruísse imagens de religiões africanas, como já ocorreu com evangélicos quebrando imagens assim em terreiros de macumba, mais pessoas criticariam.
 Não se conquista o respeito de um nicho da sociedade com baixaria e vandalismo. Também não se responde agressão com agressão. No mesmo dia, um peregrino cuspiu no rosto de uma manifestante da marcha das vadias. Para quê isto? O que se consegue com este tipo de agressão? Nada.

Podemos viver em  uma sociedade onde haja sim bastante espaço para feministas se manifestarem, por motivos mais do que justos, e religiosos realizarem seus rituais e terem suas crenças, sem serem ofendidos. Respeito de todas as partes é sempre o melhor.

Leia:

A destruição de imagens sacras na Marcha das Vadias fez mais mal do que bem

quinta-feira, 25 de julho de 2013

"Bomba-relógio", derretimento no Ártico pode custar US$ 60 tri à economia global



A liberação de metano no Ártico pode acelerar o derretimento das calotas polares, causando mudanças climáticas que custariam à economia global cerca US$ 60 trilhões nas próximos décadas. A informação foi revelada nesta quarta-feira (24/07) pela revista Nature.





Pesquisadores da Universidade de Cambridge e da Universidade Erasmus, na Holanda, calcularam o impacto social e econômico da liberação de um milhão de toneladas de metano no Mar da Sibéria Oriental. O resultado é assustador já que esse gás é responsável pelo efeito estufa e por drásticos impactos no meio ambiente.




Nos últimos meses, cientistas encontraram mais de 150 mil pontos do Ártico onde há vazamento de metano na atmosfera. Pesquisas aéreas e terrestres no Alasca e na Groenlândia revelaram que muitos dos vazamentos estão localizados em áreas onde as geleiras estão recuando ou o permafrost está derretendo à medida que o clima esquenta, eliminando o gelo que aprisionou -- por séculos -- o gás estufa no solo.




“O efeito do aquecimento no Ártico é uma bomba-relógio no ponto de vista econômico”, resume o autor da pesquisa, Gail Whiteman, professor de sustentabilidade na Universidade de Erasmus. “Se não houver uma mudança e ninguém operar medidas de mitigação da mudança climática, o modelo que fizemos calcula que os impactos ambientais e econômicos podem chegar a US$ 60 trilhões", afirma Chris Hope, da Universidade de Cambrigde.

















Mais de 80% dos 60% trilhões estariam relacionado ao aumento de temperatura extrema em diversos país, inundações, secas e diminuição da qualidade de vida graças à poluição. Todos seriam efeitos do derretimento do Ártico e vazamento de metano.


O estudo divulgado pela revista Nature afirma que pode haver um aumento na temperatura em dois graus Celsius de 15 a 35 anos caso nenhuma medida efetiva seja tomada nos próximos anos. Os cientistas afirmam que a média do aumento da temperatura no mundo para este século precisa ficar abaixo de dois graus celsius. Mais do que isso, “os efeitos podem ser devastadores”, dizem. Atualmente, a média de aumento da temperatura está entre 3,6 e 5,3 graus celsius.




Opera Mundi

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Papa critica projetos de liberalização de drogas na América Latina



Na visita ao Hospital São Francisco de Assis, na zona norte do Rio, o papa Francisco atacou nesta quarta-feira, 24, os projetos de liberalização das drogas na América Latina e acusou traficantes de serem os "mercadores da morte". Na primeira vez que fala publicamente sobre o problema das drogas desde o início de seu pontificado, o argentino deu as primeiras indicações de que, se seus gestos são novos e sua simpatia o transformou em um ícone global, ele não está disposto a mudar posições tradicionais da Igreja.

A crítica à liberalização das drogas ocorreu enquanto visitava o hospital, que atende dependentes de drogas, e depois de se reunir com cinco pacientes.

"Não é deixando livre o uso de drogas, como se discute em várias partes da América Latina, que se conseguirá reduzir a difusão e a influência da dependência química", declarou. Países como o Uruguai já liberalizaram o consumo de maconha, enquanto outros na região avaliam propostas similares.

Para ele, a solução não vem da liberalização, mas de uma estratégia para "enfrentar os problemas que estão na raiz do uso das drogas, promovendo uma maior justiça, educando os jovens para os valores que constroem a vida comum, acompanhando quem está em dificuldade e dando esperança ao futuro".

Na avaliação de vaticanistas, Francisco começa a revelar com esse discurso que, apesar de ser tido como reformador, adotará posturas tidas como conservadoras em diversos setores sociais e desafios.

Mas o papa não deixou também de atacar o narcotráfico. "São tantos os 'mercadores da morte' que seguem a lógica do poder e do dinheiro a todo custo", disse. "A chaga do tráfico de drogas, que favorece a violência e que semeia a dor e a morte, exige da inteira sociedade um ato de coragem", insistiu.

Não é a primeira vez que um papa ataca de forma frontal os narcotraficantes. Em 2007, quando Bento XVI esteve no Brasil, ele alertou que essas pessoas teriam de enfrentar a Deus no juízo final.

Parábola. O papa Francisco ainda atacou o egoísmo da sociedade por não dar atenção suficiente aos dependentes de drogas. "Precisamos abraçar quem tem necessidade", disse. "Há tantas situações no Brasil e no mundo que reclamam a nossa atenção, cuidado, amor, como a luta contra a dependência química", declarou. "Frequentemente, porém, nas nossas sociedades, o que prevalece é o egoísmo", afirmou.

Francisco cita a parábola do Bom Samaritano, que fala de um homem atacado por assaltantes e deixado quase morto ao lado da estrada. "As pessoas passam, olham, mas não param. Indiferentes, seguem o seu caminho. Não é o problema deles".

O papa aponta para o centro de tratamento como exemplo do Bom Samaritano e lembra que São Francisco de Assis abriu mão de sua riqueza justamente depois que, quando jovem, abraçou um leproso.

"O jovem Francisco abandonou riquezas e comodidades do mundo para fazer-se pobre no meio dos pobres, entende que não são as coisas, o ter, os ídolos do mundo a verdadeira riqueza e que estes não dão a verdadeira alegria, mas sim seguir a Cristo e servir aos demais", disse. "Em cada irmão e irmã em dificuldades, abraçamos a carne sofredora de Cristo. Hoje, neste lugar de luta contra a dependência química, quero abraçar cada um de vocês".

Francisco garante que a Igreja está ao lado deles. Mas, na avaliação do papa, parte da responsabilidade em se recuperar é do próprio dependente. "Você é o protagonista da subida. Esta é a condição imprescindível. Você encontrará a mão estendida de quem quer lhe ajudar. Mas ninguém pode fazer a subida no seu lugar", declarou. "A travessia é longa e cansativa, mas olhem para frente. Não deixem que lhes roubem a esperança. Mas também digo: não roubemos a esperança, pelo contrário, tornemo-nos todos portadores de esperança."



Estadão.



Como eu sempre disso, critico as pessoas quando ela merecem e elogio quando merecem. Neste caso, concordo com o Papa.
Leia meus artigos:

Descriminalizar as drogas é a solução?




Falar em legalização da maconha é estupidez

Se puder, doe agasalhos. Você tem sua casa quentinha. Eles não.



Com frio em SP, 11 mil moradores de rua procuram abrigos




Uma ação da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo recolheu 11 mil moradores de rua na madrugada desta quarta-feira (24) por conta do frio. No total há 63 abrigos públicos que comportam nove mil pessoas na cidade.

Para atender a demanda a prefeitura também criou outros quatro espaços com capacidade para outras duas mil pessoas, além de improvisar mais mil vagas nos abrigos já existentes.

De acordo com a secretaria essa prática é comum para suprir a demanda e evitar que os moradores de rua fiquem expostos ao tempo frio. A maioria das pessoas recolhidas pelo programa de assistência foi encaminhada para o principal abrigo da cidade, que fica na região da Mooca, na zona leste.

Para levar os moradores de rua foram utilizados três ônibus que circularam principalmente pelo centro, onde vivem grande parte dos andarilhos. Como já havia a expectativa para que fizesse muito frio nesta madrugada, as pessoas começaram a ser recolhidas no começo da tarde de ontem.

A iniciativa durou até o fim da madrugada desta quarta-feira e ainda contou com a participação da pastoral de rua da Paróquia São Miguel Arcanjo. Durante as rondas, os assistentes sociais ofereciam abrigo e uma refeição, mas nem todos queriam deixar as ruas para ir para o abrigo.

O padre Júlio Lancelloti participou da iniciativa nesta madrugada e explicou que alguns moradores evitam aderir a iniciativa. "Muitos não querem abandonar seus pertences ou já tem um lugar para ficar. Sempre fazemos a abordagem de forma tranquila explicando a urgência, mas nem sempre os moradores de rua aceitam", disse.

Como ainda há a previsão de frio para esta madrugada, a Secretaria e Assistência e Desenvolvimento Social disse que manterá os ônibus de prontidão e realizará uma nova ação, durante a madrugada, para abrigar os moradores de rua nos abrigos da cidade.




Folha de São Paulo

Procure a prefeitura da sua cidade para conhecer os pontos de doação de agasalhos.

domingo, 21 de julho de 2013

Refutando argumentos desonestos vegetarianos

Cozinho, logo existo - Suzana Herculano-Houzel



Folha de São Paulo

CIÊNCIA
Ou como as Ofélias e os Atalas da pré-história aprimoraram nosso cérebroRESUMO O domínio da técnica de cozer alimentos representou vantagem competitiva para o homem em relação a outros animais. O aprendizado lhe permitiu obter rápida e facilmente combustível energético para alimentar 86 bilhões de neurônios e deu impulso a funções cerebrais cognitivas, não ligadas à sobrevivência.

SUZANA HERCULANO-HOUZEL

O QUE TEM o cérebro humano de tão especial? Por que nós estudamos o cérebro de outros animais, e não vice-versa? O que o nosso tem ou faz que nenhum outro alcança?
Quando me interessei por essas questões, cerca de dez anos atrás, era consenso na área que todos os cérebros de mamíferos --incluindo o humano-- eram construídos da mesma maneira, como versões maiores ou menores de um mesmo plano-padrão e, portanto, com um número de neurônios sempre proporcional ao tamanho daqueles, ainda que não linearmente.
Uma das implicações básicas desse raciocínio é que dois cérebros de um mesmo tamanho deveriam possuir número semelhante de neurônios. Considerando que neurônios são as unidades funcionais de processamento de informação do cérebro, era de esperar que os donos de cérebros de dimensões idênticas exibissem habilidades cognitivas semelhantes.
Mas não é o que se vê. Vacas e chimpanzés têm cérebros de cerca de 400 gramas; capivaras e macacos, de 70-80 gramas; mas chimpanzés e macacos são capazes de comportamentos muito mais variados, complexos e flexíveis do que seus parentes não primatas de tamanho cerebral equivalente.
(Para ser absolutamente correto, é preciso reconhecer a possibilidade de vacas e capivaras terem uma vida mental interior tão rica que até escolham não deixar suas habilidades mentais transparecerem. Mas é bem pouco provável: as diferentes habilidades de cérebros de porte igual como esses são uma primeira evidência de que órgãos diferentes não devem ser apenas versões maiores ou menores de um mesmo plano básico.)
Mais problemática ainda é a outra inferência da suposta universalidade das regras de construção dos cérebros: a de que os maiores deveriam sempre possuir mais neurônios do que os menores. Ou seja, quanto maior o órgão, mais cognitivamente capaz seu dono deveria ser. Desse modo, o maior cérebro na face da Terra também deveria ser o mais capaz.
Naturalmente, nós nos consideramos a espécie mais capaz de todas. E aqui está o paradoxo: não possuímos nem de longe o maior cérebro de todos. O de elefantes, que oscila entre quatro e cinco quilos, é cerca de três vezes maior do que o nosso, que pesa em geral de 1,2 kg a 1,5 kg. Os de baleias chegam a pesar nove quilos. Se fôssemos nos fiar pela lógica, então, elas é que deveriam estar nos estudando. (O escritor e comediante britânico Douglas Adams, morto em 2001, era quem sabia o que andava pelos pensamentos de um cachalote, conforme segredou n' "O Guia do Mochileiro das Galáxias".)
É por causa dessa discrepância que, para explicar nossa superioridade cognitiva, por muito tempo a ciência recorreu ao argumento de que o cérebro humano era especial, literalmente extraordinário: uma exceção às regras. Outros podiam até ser maiores; mas o nosso devia ser"¦ melhor.
Ele parece mais avantajado do que o "necessário" para dar conta das funções do corpo. O que significa que sobra córtex cerebral para funções cognitivas, e não meramente vegetativas.
A lógica por trás desse argumento da encefalização máxima no ser humano é a de que o tamanho do cérebro geralmente acompanha o do corpo. Por isso, uma baleia que pesa várias dezenas de toneladas supostamente precisaria ter um cérebro maior do que o humano --mas que serviria apenas para dar conta do corpo, sem "restar" córtex cerebral para tarefas mais complexas.
A maior prova da suposta enorme encefalização do homem, no entanto, viria da comparação da nossa espécie com grandes primatas. Gorilas, por exemplo, chegam a ser duas a três vezes maiores do que humanos, do que se tira que o cérebro deles deveria ser maior do que o nosso --mas, ao contrário, o humano é que é três vezes maior do que o do grande macaco.
A necessidade energética também faz o cérebro humano parecer especial. Embora represente apenas 2% do peso do corpo do homem, o órgão consome sozinho 25% de toda a energia usada por ele num dia: são cerca de 500 kcal de um total de 2.000 calorias diárias, simplesmente para manter o aparato mental funcionando. Em outros animais, em comparação, o custo relativo do cérebro chega a no máximo 8% do gasto energético total do organismo.



EXCEÇÃO


Esse era o consenso quando comecei a estudar cérebros de humanos e outros bichos: o nosso é especial, por ser maior do que "deveria ser" e custar muito mais energia do que aquilo que se esperaria para o seu tamanho. Mas essa unanimidade entrava em choque com minha formação em biologia, ciência que busca entender as regras que se aplicam à vida em geral. Por que as regras da evolução deveriam se aplicar a todos os outros animais, mas nós seríamos uma exceção?
Pensei que o problema talvez estivesse na premissa básica de que todos os cérebros de mamíferos seriam construídos da mesma maneira. Talvez dois cérebros de tamanhos semelhantes pudessem na verdade conter números de neurônios bastante diferentes; talvez um órgão enorme, como o do elefante, pudesse até ter menos neurônios do que um mais modesto. Talvez o cérebro humano tivesse mais neurônios do que qualquer outro, independentemente de sua dimensão --especialmente no córtex, sede de funções como o raciocínio abstrato.
Para mim, então, a questão mais importante passou a ser quantos neurônios tem o cérebro humano, e como isso se compara com outros animais. Dizia a lenda que temos 100 bilhões de neurônios --mas nenhum de meus colegas conhecia o estudo original que teria chegado a esse número e, em todas minhas buscas, nunca o localizei. Até onde sei, ninguém havia contado o contingente de neurônios humanos ou de outros animais.
A técnica disponível até então era impossível de se aplicar à totalidade do órgão --e, de toda forma, boa parte dos cientistas parecia acreditar que a questão já estava resolvida.
Inventei uma maneira de contar células no cérebro e tive a sorte de contar com o apoio do professor Roberto Lent, da UFRJ, que me cedeu seu laboratório quando eu não tinha nenhum. Eu ia contar células"¦ em sopas de cérebro.
Soa repulsivo pensar em transformar em sopa o que um dia foi o âmago biológico de uma pessoa, eu reconheço. Mas, veja bem, não é muito diferente do que já se faz em tantos laboratórios, que é contar cérebros em pedacinhos mínimos para analisar sob o microscópio. A diferença é que meus pedacinhos seriam tão menores que o conjunto viraria líquido.
A base do método é dissolver o cérebro em um detergente que destrói todas as membranas das células, mas mantém intactos os núcleos delas, que passam assim a flutuar, soltos, em suspensão. Como o conjunto agora é líquido (com a aparência de um consomê claro), basta agitar a sopa para deixar os núcleos distribuídos homogeneamente e então extrair algumas amostras de volume definido para contá-los ao microscópio. Voilà: conhecendo-se o volume total da "sopa", basta uma regra de três para chegar ao número total de células no cérebro em apenas 15 minutos ao microscópio.
Dois anos depois, sabíamos de que eram feitos os cérebros de uma dúzia de animais, entre roedores e primatas. E foi uma agradável não surpresa descobrir que, de fato, eles são construídos de modo distinto.
Entre espécies de roedores, conforme se multiplica no cérebro a quantidade de neurônios, essas células também aumentam de tamanho, o que faz com o que o órgão infle muito mais rapidamente do que ganha neurônios. Mas entre primatas, cérebros maiores possuem mais neurônios cujo tamanho médio praticamente não aumenta --o que é uma maneira muito econômica, em termos de espaço, de ganhar neurônios. A consequência é que primatas sempre têm mais neurônios concentrados em um mesmo volume de cérebro do que roedores.
No cérebro humano, encontramos uma média de 86 bilhões de neurônios (a quem me diz que soa parecido com 100 bilhões, lembro que a diferença corresponde a um cérebro inteiro de babuíno). Desses, 16 bilhões compõem o córtex cerebral --provavelmente o maior número de neurônios em qualquer cérebro no planeta, mesmo nos maiores do que o nosso, o que acredito ser a explicação mais simples para nossa capacidade cognitiva notável.
Mas os "86 bilhões" deixam mesmo de ser apenas um número e ganham significado quando os cotejamos com o quinhão celular de outros animais.
Como descobrimos que a relação entre o tamanho do cérebro e seu número de neurônios pode ser descrita matematicamente, pudemos calcular como seria o cérebro humano se fosse construído como um cérebro de roedor: com 86 bilhões de neurônios, um roedor genérico pesaria 89 toneladas e teria um cérebro de impossíveis 36 quilos (tamanho de uma criança de dez anos). Um órgão assim não seria viável, pois colapsaria esmagado pelo próprio peso.
O fato de não termos 89 toneladas nem um cérebro descomunal ilustra, então, o que deveria ser óbvio: não somos roedores nem possuímos um cérebro grande de rato. Comparar humanos a roedores e concluir que somos especiais em comparação a eles é, portanto, enredar-se num paralelo vazio, do tipo laranjas com maçãs.
Primatas que somos, é em relação a eles que devemos nos medir. E aqui a matemática mostra que um primata genérico com 86 bilhões de neurônios teria um cérebro de 1,2 kg (o que é bem próximo da nossa média) e um corpo de 66 quilos (dentro dos padrões).
A conclusão nada surpreendente, mas ainda assim extremamente importante, porque contraria nossa suposta excepcionalidade, é uma só: temos um cérebro de primata. Nem mais, nem menos. (Divirto-me pensando que Darwin teria gostado de ler esta manchete: "Cérebro humano feito à imagem de outros cérebros de primata!".)
O cérebro humano, portanto, é notável, sim --mas não especial ou extraordinário, no sentido estrito da palavra. Fico satisfeita de ter contribuído à ciência uma descoberta que nos lembra de nosso lugar na natureza --o que deveria inspirar um pouco de humildade.
Se não é especial, por que sorve tanta energia? Como já havia dados na literatura sobre o custo energético do cérebro de humanos e outros animais, agora que conhecíamos os montantes de neurônios ficara fácil fazer as contas.
Já trabalhando em meu próprio microlaboratório, cheguei à conclusão de que cérebros humanos, de macacos, babuínos e roedores têm gasto energético semelhante: uma média de seis quilocalorias diárias por bilhão de neurônios. O custo total de energia de um cérebro é, portanto, uma simples função linear do número de neurônios que ele possui. Posto dessa maneira, o órgão humano mais uma vez apenas se encaixa no esperado: com seus 86 bilhões de neurônios, consome tanto quanto deveria --cerca de 500 kcal por dia.





ENERGIA




Como conseguimos esse número notável de neurônios? E, em particular, se grandes primatas são ainda maiores do que nós, por que eles não têm mais neurônios do que nós? Quando me dei conta de quão caro é ter uma enormidade de neurônios, passei a suspeitar que talvez grandes primatas simplesmente não conseguissem energia suficiente para sustentar concomitantemente um corpanzil e um cérebro grande.
Com Karina Fonseca-Azevedo, aluna de iniciação científica, fiz as contas. Calculei, de um lado, quanta energia um primata consegue obter por dia com sua dieta típica de alimentos crus e, de outro, quanto "custa" um corpo de um certo tamanho e um cérebro dotado de um certo contingente de neurônios. Depois, busquei as combinações de tamanho corporal e número de neurônios que um primata conseguiria sustentar comendo um certo número de horas por dia.
Devido ao alto custo dos neurônios, descobri que existe um "toma lá, dá cá" entre neurônios e massa corporal. Um primata que come oito horas por dia conseguiria bancar um máximo de 53 bilhões de neurônios --mas, neste caso, não teria como pesar mais do que 25 quilos.
Para ficar maior do que isso e continuar energeticamente viável (ou seja, para não morrer de fome), seria preciso abrir mão de neurônios. Quando se come como um primata, ou se é corpulento, ou se tem um cérebro equipado com neurônios a não mais poder; não se deve aspirar a ambos.
Uma alternativa, é claro, seria passar ainda mais horas por dia comendo. Mas isso é brincadeira perigosa que logo se torna irrealizável. Gorilas e orangotangos custeiam seus cerca de 30 bilhões de neurônios comendo oito horas e meia por dia --e, convenhamos, não conseguem fazer muito mais do que isso. Nove horas diárias de alimentação parecem ser o limite prático para um primata.
E nós, humanos? Com 86 bilhões de neurônios e 60-70 quilos de massa corporal, pela lógica, deveríamos passar mais de nove horas por dia comendo --o que naturalmente não é o caso, e nem seria possível. Se comêssemos como fazem os demais primatas, não deveríamos estar aqui.
Como chegamos então aos 86 bilhões de neurônios, se nosso cérebro não custa nada a menos do que deveria e se não podemos passar o dia todo à mesa? A alternativa que resta é, de alguma maneira, extrair mais calorias das mesmas porções de alimento. Essa, sim, é uma alternativa extremamente interessante --e que casa com uma invenção creditada a nossos antepassados na época certa, cerca de 1,5 milhão de anos atrás: a cozinha.
Cozinhar é essencialmente usar fogo para pré-digerir alimentos fora do corpo. Dito assim, não soa nada apetitoso. Mas produtos cozidos, muito mais macios, podem ser facilmente mastigados e triturados na boca, o que faz com que sejam totalmente digeridos por enzimas no estômago e absorvidos no intestino.
O domínio dessa técnica permite ao homem extrair de alimentos até três vezes mais energia do que se eles fossem ingeridos crus --e o ganho é também de tempo, vale destacar. Cozinhar, pois, nos rende não só mais calorias como também tempo livre.





VANTAGEM




Graças à cozinha, o que até então era um risco cada vez maior --um cérebro fervilhando com neurônios-- se tornou uma grande vantagem, principalmente agora que nossos antepassados tinham tempo disponível para direcionar seus neurônios a atividades mais interessantes do que pensar obsessivamente em comida, procurá-la e consumi-la. Essa me parece a explicação mais simples para a evolução tão rápida de um cérebro tão grande quanto o nosso --e somente do nosso.
Com um órgão cheio de neurônios mantidos por alimentos cozidos, nossa espécie passou rapidamente da comida crua à ciranda de cultura, agricultura, civilização, mercados, eletricidade, geladeiras --todo esse aparato que hoje nos permite obter todas as calorias de que precisamos em uma sentada só na lanchonete da esquina. O que um dia foi a solução hoje passou a ser o problema: fomos da incerteza de calorias diárias ao excesso em cada refeição. E, numa reviravolta irônica da evolução, agora tentamos resolver o problema"¦ voltando à comida crua das saladinhas.
(Ao pessoal do crudivorismo que perdeu sua "explicação" favorita de que "a comida crua era a alimentação dos nossos ancestrais" e me ataca dizendo que "você está errada, pois obviamente é possível comer só comidas cruas", eu respondo completando a frase deles com um ""¦hoje em dia, quando temos na esquina de casa mercados de frutas e hortaliças já plantadas, colhidas e servidas --e geladeiras para preservar tudo". Mesmo assim, o preço do crudivorismo é alto: fome permanente, perda da saúde e de peso. Bom, esta eu concedo: comer exclusivamente alimentos crus é a única dieta verdadeiramente infalível que conheço.)
Qual é, então, a vantagem de ser humano? O que nós temos que nenhum outro animal tem --e que é a explicação mais simples para nossas vultosas habilidades cognitivas? "O maior número de neurônios no córtex cerebral", eu diria. E o que nós fazemos que nenhum outro animal faz, e que, de quebra, acredito ter sido fundamental para nos permitir chegar ao número enorme de neurônios corticais? Cozinhamos o que comemos. Nenhum outro animal cozinha --e, para mim, foi o que nos tornou humanos.
Estudar o cérebro humano mudou minha maneira de pensar a comida. Hoje, toda vez que olho minha cozinha, faço reverências mentais a ela -- e agradeço a nossos ancestrais por uma invenção que nos legou a humanidade.

-Não possuímos nem de longe o maior cérebro de todos. O de elefantes, que oscila entre quatro e cinco quilos, é três vezes maior do que o nosso, que pesa em geral de 1,2 kg a 1,5 kg
Com 86 bilhões de neurônios e 60-70 quilos de massa corporal, pela lógica, deveríamos passar mais de nove horas por dia comendo --o que não é o caso
Graças à cozinha, [...] nossos antepassados tinham tempo para direcionar seus neurônios a atividades mais interessantes do que pensar em comida, procurá-la e consumi-la
Embora represente apenas 2% do peso do homem, o cérebro consome 25% de toda a energia usada por ele num dia: são cerca de 500 kcal de um total de 2.000 calorias