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domingo, 31 de março de 2013

Ainda bem que é o coelho (e não a indústria) que produz o chocolate



Leonardo Sakamoto


A Páscoa, como todos sabemos, é o dia em que celebramos o surgimento do primeiro espécime ovíparo de coelho que metaboliza cenoura em chocolate. Dizem que judeus e cristão deram outro significado para a data, provavelmente querendo pegar uma onda na milenar tradição criada pelo comércio. Mas dada a quantidade de ovos pendurados nos mercados desde janeiro, quem acreditaria que a data significa algo mais?


Como os coelhos mutantes têm dificuldade de fazer tudo sozinho, a indústria dá uma ajudinha. Produz-se cacau não apenas nas locações das novelas das 21h da Globo e em outras fazendas na Bahia, mas também em locais mais distantes da praia, como o interior do Pará.
Nesse estado amazônico, temos experiências de cultivo inclusivo, feito por pequenos produtores, como aqueles do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança, em Anapu – pelo qual viveu e morreu a irmã Dorothy Stang. De acordo com o procurador da República Felício Pontes, esse programa é um oásis em meio à pobreza local formada por grandes extensões de pasto e gado raquítico, mostrando que é possível garantir qualidade de vida à população e desenvolvimento econômico ao país, de forma pacífica, com respeito aos recursos naturais. As famílias que produzem o cacau, orgânico, estão formando uma cooperativa. Já quem está trabalhando com gado e desmatamento na região está na miséria.
Mas também temos casos, no mesmo estado, em que o couro dos trabalhadores não foi poupado.
Como a publicidade elegeu, mais uma vez, as crianças como protagonistas desta data, quem sou eu para retrucar? Contarei, portanto, um historieta.
Uma ação de fiscalização de trabalhadores do governo federal libertou, há alguns anos, 150 pessoas em Placas (PA), dentre elas mais de 30 crianças. A região sofre o impacto da expansão agropecuária e extrativista e da baixa presença do poder público para efetivar os direitos fundamentais. O grupo estava sujeito a condições degradantes de habitação, alimentação e higiene. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego no estado, a maior parte das crianças estava doente, com leishmaniose ou úlcera de Bauru. Elas eram levadas ao trabalho para aumentar a remuneração, se sujeitando a todo tipo de situação. Tanto que uma delas perdeu a visão ao cair de cara em um toco de árvore.


Os libertados, que atuavam na lavoura de cacau, já começacam o serviço devendo aos empregadores por terem que pagar equipamentos de trabalho e bens de necessidade básica. De acordo com as informações colhidas pelos fiscais, quem não cumpria as determinações dos patrões era ameaçado de morte.
Parte da indústria de alimentação que compra não só cacau, mas também outras matérias-primas de setores que vêm sendo sistematicamente envolvidos em trabalho escravo contemporâneo, não demonstra lá muita energia para garantir o controle e a transparência de suas cadeias produtivas. Perguntadas, dão respostas padrão sobre responsabilidade social empresarial que, na verdade,são investimento social privado. Ou seja, apoiam projetos mil, mas evitar que sua atividade gere impactos negativos nem pensar.
Mas para que se preocupar? Na dúvida, a culpa é do coelho. Só dele.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Páscoa amarga: Arcor faz recall de ovos de páscoa


A Arcor do Brasil anunciou nesta terça-feira (3) o recall do Ovo de Páscoa Rapunzel de 150 gramas. A fabricante constatou em algumas amostras a presença de “microfuro” na embalagem plástica que acondiciona o brinquedo contido no ovo de páscoa, por onde pode ter ocorrido a transferência de odor do brinquedo para o chocolate, alterando assim o seu sabor e aroma originais.

De acordo com a empresa, o ovo de chocolate Rapunzel 150g, não causa qualquer risco à saúde, porém em alguns casos o odor mais forte ou ingestão podem provocar desconforto e mal estar momentâneos.

Como medida preventiva, a Arcor do Brasil já está recolhendo os ovos Rapunzel dos pontos de venda / distribuidores e convoca os consumidores a efetuarem a troca deste produto e tirarem eventuais dúvidas por meio da sua Central de Relacionamento a partir do dia 03 de abril de 2012 das 08h00 as 18h00 pelos seguintes canais:

Telefones (0800 772 7717) e (0800 055 8450), e-mail (atendimento@arcor.com) ou pelo site www.arcor.com.br.

Comentário do Aurelio:
O Brasil deve ser o único país do mundo onde ovos de chocolate precisam de recall.


sábado, 23 de abril de 2011

Pelo fim da Páscoa

Chega de Páscoa Sofrida
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Escritor propõe o Feriado do Coelhinho em substituição
à Semana Santa
Estimados leitores, essa coluna inicia aqui o movimento internacional e global pelo fim da Páscoa. O que não significa o final do feriado, de maneira alguma. Todo mundo vai poder continuar ficando preso em engarrafamento livremente, não se preocupem.

Mas, o que eu acho que seria uma excelente ideia é apenas remover do nosso calendário emocional uma data baseada no pior do catolicismo: a ideia de compartilhar do sofrimento de algo ou alguém que estava lá de propósito e para isso mesmo.

Páscoa, estimados leitores, está centrada na tal paixão de Cristo. Mas paixão aqui no sentido latino, de passio, ou sofrimento. Na paixão de Cristo, o coitado é sovado sem dó por romanos e por quem mais estiver assistindo, e a gente é convidado a compartilhar da pancadaria na condição de quem a sofre. No grande final, o sujeito que veio até aqui para salvar todo mundo dos seus pecados é solenemente crucificado. Essa não é a minha ideia de divertimento, estimados leitores.

Apenas como comparação linguística, compaixão é compartilhar do sofrimento do outro. Na forma germânica, compaixão é Mitgefühl, ou algo assim, significando co-sentir, ou compartilhar dos sentimentos do outro. Eu gostaria muito, muito mais se a gente passasse a comemorar um feriado onde se praticasse o Mitgefühl, e a gente se dedicasse a sentir o outro, e, eventualmente, compreendê-lo, do que passar dias pensando no coitadinho do outro e o quanto ele se sacrificou por nós, sem que a gente pedisse.

Culpa, dor, sofrimento. Essa é a parte do catolicismo que mais me incomoda, o culto ao que existe de pior na vida, a celebração da morte, o que invariavelmente leva a sentimentos de vingança. Meu pobre pai sofre até hoje pelo que ele e os meninos da sua vizinhança faziam no sábado de malhar Judas, instigados pelo padre, quem mais.

Saibam que os romanos crucificavam todo mundo e por qualquer motivo. O cara espirrou torto, pimba, crucifiquem. Madeira e mão de obra custavam pouco, a civilização romana, com toda sua sofisticação, era muito cruel na essência. Não havia nada de especial em crucificar alguém, apenas o horror da coisa, que os contemporâneos viam e temiam. A cruz somente foi adotada pelo cristianismo uns quatro séculos depois de pararem com a prática da crucificação, quando a memória do seu horror já estava distante o suficiente para a cruz poder ser tratada como símbolo, um símbolo muito, muito eficaz. Para que celebrarmos hoje em dia o que existe de pior em uma religião tão preocupada com o sofrimento nesse mundo? Vamos para o outro lado, vamos curtir o feriado imersos em pensamentos mais felizes.

O coelhinho da Páscoa é o meu candidato a se tornar o símbolo da Nova Páscoa. Chocolate é muito melhor enquanto proposta de vida. Estimulante, prazeroso pra caramba, mais saudável do que dizem. E o coelhinho, por diversos motivos, é símbolo do que existe de divertido na vida, não é?

Não que coelhos ovíparos sejam exatamente algo muito racional. Mas, se pensarmos em crenças esquisitas, o mito cristão é tão esquisito quanto, e muito menos feliz. Feriado do Coelhinho, já. Começou a campanha e unam-se a ela, caros leitores.

O mundo era o que era, e é certo lembrar dele como foi, para compreendermos melhor o que nos tornamos. Mas celebrar os seus piores aspectos, eternizando-os em nossa mente coletiva não me parece uma boa maneira de caminhar pela vida, como sociedade.

Guerras, lutas, morte, dureza, fome, constituíram a experiência central da humanidade por milênios, mas lutamos muito e superamos parte desse karma. Existem guerras, existe infelizmente ainda a fome. Mas a maioria dos humanos não está experimentando nada disso e provavelmente nunca irá ter a tristeza de passar por tanta desgraça. Temos vacinas, produzimos comida, criamos sistemas de governo centrados na ideia de que o bem comum deve ser buscado por todos e para todos. Queremos aprender a parar de aquecer o planeta, devastar sua natureza e eliminar a pobreza mais dura. Assim que conseguirmos isso e ainda por cima fizermos desaparecer o axé, estaremos bem. Isso, sim, merece ser celebrado, e creio que o Coelhinho, com sua mensagem de fertilidade e alegria será um ótimo representante do novo feriado.

Enquanto vocês pensam no assunto, vou aqui praticar a felicidade fazendo o meu inigualável chocolate quente, receita do Café Hermés, de Paris, com o maravilhoso chocolate Rey, em pó e em barra, vindo da Venezuela especialmente para essa ocasião.

Quem quiser se juntar a mim nos festejos da Nova Páscoa, é só pedir e eu mando a receita do chocolate quente perfeito. Uma feliz Nova Páscoa a todos, é o que lhes deseja esse seu servo, eu.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.



Aurelio comenta:
De fato, não precisamos mais de mitos religiosos em nossa sociedade. Melhor pensar mesmo no coelho da páscoa do que em uma história sem sentido de um deus sádico e que manda seu filho para morrer.






sexta-feira, 22 de abril de 2011