Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Protestos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Protestos. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de junho de 2013

Fascistas de Facebook



Multidões nas ruas não me impressionam: o nazismo levou o povo alemão em peso às praças e avenidas de Berlim e grandes cidades germânicas nas décadas de 1930 e 1940, iconografia que pude estudar nos filmes de Leni Riefenstahl durante minha tese de doutorado (“Telejornalismo: estética do engodo”, PUC-SP, 1994). O que se vê agora no Brasil são estudantes classe média (coadjuvados por seus pais) expressando difusamente sua revolta diante de um aumento insignificante (para eles) na passagem de ônibus (como já lembrou alguém: um reajuste de 8 reais no mês, que corresponde a três refrigerantes, cuja suspensão comprometerá o investimento em creches, hospitais e moradias populares), e de quebra protestando contra tudo, como sonham há anos os jornalistas-tuiteiros: criminalidade, corrupção, gastos com as Copas e as Olimpíadas, PEC 37. Nem uma palavra contra os militares de 64 e os torturadores ainda impunes. Ao contrário, alguns se autointitulam “filhos da Revolução” (?!).

Essa “geração canguru” (fica na casa dos pais até se casar, o que pode significar até os 40 anos porque é careta, despolitizada, consumista e de baixa libido: parece que sua carga hormonal é substituída pela adrenalina, que eles aplicam na preferência por filmes de ação, esportes radicais ou em torcidas de MMA – o que explica os casos de vandalismo) deve estar alegrando os velhos milicos da ditadura, pois rejeitam todo tipo de político e de partidos: nenhum deles presta, portanto o Congresso Nacional poderia muito bem ser fechado.

Alguém precisa avisar a essa moçada, que barbariza nas redes sociais Renan Calheiros e o pastor Feliciano, que ambos foram legitimamente eleitos pelo voto. Também me oponho enfaticamente aos dois, mas respeito o voto de quem os elegeu. Não é o que ocorre com quem quer impor sua vontade no grito. E essa geração Facebook, intolerante e exibicionista como ela só, muito chegada a festas, fotos e face e mimada pelos pais, não costuma considerar isso. A eleição de um corrupto para presidir a Câmara é um dos riscos da democracia representativa. Há que se deixar de votar nos responsáveis por isto. Mas é preciso acatar o direito de Feliciano dizer besteira e combatê-lo politicamente, e não pretender simplesmente que meu voto tenha mais valor do que o voto de quem o elegeu: “Não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las” (é a máxima voltaireana aplicada inclusive aqui no OI).

Golpismo de classe média

No Rio o buraco foi mais embaixo. Porque os cariocas são os cidadãos mais vaidosos do país e estão com a autoestima abalada, entre outras coisas, pela interdição do Engenhão, pelo “estupro” simbólico do Maracanã e pelo estupro literal da turista americana. Encheram as ruas para resgatar sua imagem de “cidade maravilhosa” perdida, em busca dos holofotes internacionais, já que a Copa das Confederações garante visibilidade mundial.

Atrapalhar (o que já ocorre com a Copa das Confederações) ou até cancelar a Copa do Mundo é o preço que o país poderá pagar por essa garotada desorientada, parte da qual mobilizada por tuiteiros (alguns têm milhares de seguidores. Só o Mauro César Pereira botou 35 mil nas ruas. Ele só não contava com eles cantarem: “eu sou brasileiro/ com muito orgulho/ com muito amoor”).

Porque, não se iludam, o povão não caminhou ao lado desses coxinhas. Lembram-se do 1º de maio, dia do trabalhador? No mundo inteiro, em crise braba, teve passeata, e no Brasil de baixo desemprego e salários reajustados acima da inflação, só shows de comemoração da data? Lá tinha povo. Lembram do comício das Diretas Já? Um milhão de pessoas, lá tinha povo. Nessas manifestações de agora, há vândalos entre a garotada universitária (77%, segundo o Datafolha). Não deixa de ser uma ameaça de golpismo de classe média, uma demonstração de força de uma classe específica.

Futuro imprevisível

Tão cândido o apoio de Tostão, concordando com um manifestante, de que trocava o sistema educacional do Japão pela vitória do Brasil contra o país. Primeiro, que o Japão é do tamanho de Goiás. Depois, o sistema educacional do Japão é tão opressivo que até crianças se suicidam quando não vão bem nos estudos. Conclusão: o Índice de Desenvolvimento Humano não mede o índice de felicidade de uma sociedade.

Acho legítimo protestar, reivindicar, ir às ruas. Acho fascismo se impor ao direito de ir e vir dos outros, hostilizar imprensa e partidos, tentar impedir a realização de eventos internacionais aos quais, acredito, a maioria do povo brasileiro, se consultado, se diria orgulhoso de abrigar. Se houve corrupção, cabe ao Poder Público apurar e punir. Tem razão o manifestante democrático que apelou para o humor, ao exibir o seguinte cartaz, em Vitória, ES: “Não adianta vir como um leão ao movimento se na eleição você vota como um jumento”.

A imprensa internacional diz que o futuro destes movimentos sociais (que, insisto, têm caráter classista) é imprevisível, mas arrisco um palpite: o povão adorou a redução de tarifas conquistadas no grito pelos fascistas de Facebook (por mais que a mídia interesseira doure a pílula, nesses jovens tecnófilos não cabe o rótulo de “idealistas”) e na próxima vez que os poderes públicos, seja quem for que estiver no comando, tentarem aumentar as passagens, os trabalhadores vão engrossar as passeatas de classe média e o país se tornará bem difícil de governar.

***

Silvia Chiabai é jornalista

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Classe-média raivosa odeia pobre e não quer que ele vote!



A foto foi parar nas redes sociais e criticada por causa de uma das três reivindicações no cartaz: “Recebe Bolsa Família? Sem direito à voto” [sic].

A ideia (ao que tudo indica) parece ser que se você está recebendo auxílio do governo, você pode tornar-se massa de manobra facilmente influenciada pelo governo de plantão. Logo, não poderia votar.

Essa, aliás, é mais ou menos a mesma razão pela qual os conscritos ainda não podem votar.

Levando essa proposta às suas últimas consequências, deveríamos também excluir outros grupos do processo democrático. Por exemplo, todo universitário estudando em uma universidade pública deveria ser excluído. Afinal, dependem do governo para estudarem. Aposentados também deveriam ser excluídos porque estão recebendo dinheiro do governo. E quem dirá de qualquer pessoa que já recebeu vacina contra pólio? E dono de empreiteira que tenha contrato com governo deveria estar automaticamente fora. Por via das dúvidas, deveríamos também excluir seus trabalhadores pois seus salários são pagos pela empreiteira. Pacientes do SUS também recebem assistência médica gratuita e por isso não poderiam votar. Qualquer pessoa que tenha se beneficiado de policiamento nas ruas ou que algum dia tenha parado no sinal de trânsito ou mesmo usado uma rua asfaltada ou iluminada também seria suspeito de ser massa de manobra. Afinal, usou um serviço público gratuito.

A lista é grande e basicamente todos nós apareceríamos em algum lugar nela. Em uma sociedade, estamos corriqueiramente interagindo com o governo, e em muitos momentos o governo paga por algum serviço que utilizamos quase sem notarmos. Muitas vezes ele nos financia diretamente; outras vezes, indiretamente.

O resumo da ópera é que, primeiro, não há serviço público gratuito. Todos pagamos por eles de uma forma ou de outra. E, segundo, não há como dizermos que não nos beneficiamos de algum serviço do (ou pagamento feito pelo) Estado, simplesmente porque vivemos em uma sociedade.

Mas isso não quer dizer que o protesto não levante questões importantes para nossa democracia.

Uma vez a cada dois anos somos chamados a votar. E esse é um momento no qual todos temos o mesmo poder de voto. Seja branco, seja negro; seja homem, seja mulher; seja analfabeto, seja doutor; seja pobre, seja rico. Um voto por eleitor. É o único momento no qual, embora não sejamos iguais, temos exatamente o mesmo poder.

Excluir qualquer grupo fere nossas noções básicas de justiça. Tente imaginar o sentimento se voltássemos à década de 1920, quando apenas homens podiam votar? Ou se reinstituíssemos o voto censitário (aquele no qual apenas pessoas com patrimônio ou renda acima de um determinado valor podem votar)? Ou se excluíssemos todos os negros, como acontecia durante a escravatura?

Soa estranho, não?

Mas ainda assim fazemos isso todos os dias, sem notar.

Não são apenas os conscritos mencionados acima que são excluídos. Loucos também o são. Condenados presos também não votam. E pense nos milhares de estrangeiros que trabalham e pagam seus impostos no Brasil, respeitam as leis brasileira, contribuem para com nossa economia e cultura (e muitas vezes têm famílias brasileiras) mas, como não são brasileiros, não podem escolher quem faz as leis que os afetam?

A decisão sobre quem está apto a votar ou não é algo que muda com o tempo. Pode parecer absurdo para as gerações futuras que hoje aceitemos a ideia de excluirmos parcelas de nossa população, assim como hoje achamos estranho que alguém possa querer reinstituir o voto censitário.

Mas existe um segundo debate importante aqui. E ainda mais delicado.

Nos acostumamos com a noção de democracia. Mas, de todos os sistemas já tentados, a democracia é o mais novo. Durante a história humana, passamos a maior parte do tempo sob ditaduras, teocracias etc. As democracias modernas não têm mais de cem ou duzentos anos, se tanto. Talvez tenham nascido no fim da década de 1960.

E, como tal, democracia não é algo pronto e acabado. Ela é ainda um sistema em formação. Estamos aprendendo a ser democratas na prática e na marra. Daí protestos como o acima que aparecem vez por outra.

Uma das poucas coisas que todas as democracias modernas têm em comum é que cada eleitor tem um voto. Para uma parcela da sociedade chegar ao poder por meios democráticos, basta ter mais gente. Mas isso gera questões importantes e para as quais ainda não temos soluções definitivas.

O que acontece, por exemplo, se um segmento da sociedade começar a ter uma taxa de natalidade maior, seja por questões religiosas, financeiras, geográficas ou o que seja? Afinal, com o tempo passarão a ter mais votos.

Se um segmento que tenha uma taxa de natalidade maior for a favor de restringir ou mesmo abolir a democracia, deveríamos excluí-los do processo democrático simplesmente porque suas opções ou condições pessoais fazem com que seu grupo tenha mais votos? Ou deveríamos aceitar o fato de que democracia é de fato o governo da maioria e, se a maioria quiser acabar com a democracia, ela deve ter tal direito? Ou seria mais justo estabelecermos um número máximo de representantes que podem ter (ou, alternativamente, um número mínimo que as minorias deve ter), independente de quão insignificante seja tal minoria ou de quão prevalescente seja tal maioria?

Se isso pode parecer muito abstrato, pense no que acontece nas eleições para Câmara: há um número máximo de representantes por Estado (70), e um número mínimo (8), justamente para não se permitir que um Estado como São Paulo consiga se impor ao resto do país, ou um Estado como Roraima desapareça do mapa político.

Ou pense nas dezenas de manchetes que você já viu dizendo que algum lobista influenciou um parlamentar a aprovar algo que beneficia uma minoria, em detrimento da maioria.

Todas essas questões têm um mesmo ponto em comum: ainda não achamos uma fórmula ideal que respeite a vontade da maioria sem desrespeitar os direitos das minorias.

Novamente: democracia não é um prédio pronto. É um canteiro de obras em constante construção.







Para entender direito

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Financial Times diz que manifestantes brasileiros são um bando de coxinhas



Consumismo + Alienação = Coxinhas


Slogans em protestos revelam consumismo e alienação, diz FT
BBCBrasil.com


Em longo artigo assinado pela colunista Samantha Pearson, o jornal britânico Financial Times examina a adoção de slogans publicitários pelos manifestantes que vêm tomando as ruas de diversas cidades brasileiras no último mês.


A publicação lembra que o uso de motes de campanhas em protestos não é uma novidade em protestos em todo o planeta.


"Mas os manifestantes no Brasil tomaram um caminho incomum, usando os populares slogans para defender causas não relacionadas (aos slogans). É um sinal, dizem sociólogos, de excessivo consumismo e alienação política", observa o FT.


"Sem esforço, a italiana Fiat e a britânica Diageo, dona da marca de uísque Jonnhy Walker, se tornaram patrocinadores não oficiais dos maiores protestos