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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Jornalismo de segunda-mão transforma medicina em ideologia



Veja como a mídia trata a questão da vinda de médicos estrangeiros para atuar em regiões desassistidas no Brasil.

A Folha, hoje, “comemora” uma suposta “desistência” do Brasil em trazer seis mil médicos cubanos para o país. Os motivos seriam, segundo a Folha, que Cuba gostaria de negociar país e a país, terceirizando os médicos que enviaria.

Ora, o Brasil poderia até pagar pelo recrutamento, seleção e organização da vinda de médicos. Mas é básico que quem trabalha e recebe no Brasil está sob a regência da lei brasileira, não de outra qualquer.

Se Cuba cobra de quem está disposto a pagar – e pode fazer isso, porque certamente não é o caso da maioria dos países que recebe missões médicas. Aliás, não é mesmo, segundo a Agência France Press,em reportagem da qual onde a repórter da Folha “chupou” – sem citar – as informações sobre a renda da exportação de serviços médicos pela ilha, inclusive a comparação com as exportações de níquel ou o turismo. Segundo a France Press, dos 66 países que recebem médicos cubanos, apenas 26 pagam por isso e, segundo o Ministro da Saúde de Cuba, com esses recursos “pagam” os gastos com os outros 40, além de destinarem parte a, diz ele, ”melhorar a qualidade dos serviços de saúde e as condições de trabalho dos profissionais do setor”.

A matéria da qual se serviu a Folha diz ainda outras coisas que o jornalismo de segunda-mão, revisto e editado, não lhe permite fazer. Transcrevo apenas um trechinho:

“Em maio, Cuba registrava 38.868 trabalhadores do setor (de saúde)no exterior, entre eles 15.407 médicos, segundo Yiliam Jiménez, diretora da Unidade Central de Cooperação Médica.

Em 1999 Cuba criou a Escola Latino-americana de Medicina, que possui 14.263 alunos estrangeiros.

A saúde, que é gratuita em Cuba, é uma das principais conquistas do governo comunista. O setor recebeu em 2012 16% do orçamento nacional, mas continua afetado pela crise provocada pelo fim da ajuda soviética, que se manifesta na deterioração de edifícios e na escassez de insumos, equipamentos e medicamentos.

“O que compensa é que os médicos são bons, porque o estado dos hospitais é terrível”, afirmou à AFP María, uma dona de casa de 58 anos.”

E também não diz, ao citar os salários pagos aos médicos cubanos por lá, que os preços por lá também são baixos: o aluguel, por exemplo, custa dois dólares ou menos.

Mas isso é problema dos cubanos, não nosso.

Nosso problema é ter médico nos rincões mais afastados.

E é disso que trata outra matéria, publicada no final de semana, pela Istoé e que está longe de revelar o Governo brasileiro desistindo de seu plano, como diz a Folha:

“Na última semana, ISTOÉ teve acesso aos bastidores do plano que pode revolucionar o SUS. Numa medida destinada a responder aos protestos que entidades médicas organizaram nas últimas semanas pelo País, o governo decidiu organizar a entrada dos médicos estrangeiros em duas etapas. Numa primeira fase, irá reservar as vagas disponíveis para médicos brasileiros. Numa segunda fase, irá oferecer os postos remanescentes a estrangeiros interessados. Conforme apurou ISTOÉ, universidades e centros de pesquisa serão chamados a auxiliar no exame e na integração dos médicos de fora. Não é só. Numa operação guardada em absoluto sigilo, o Ministério da Defesa também foi acionado para elaborar um plano de deslocamento e apoio aos profissionais – estrangeiros ou não – que irão trabalhar na Amazônia e outros pontos remotos do País, onde as instalações militares costumam funcionar como único ponto de referência do Estado brasileiro – inclusive para questões de saúde. O apoio militar prevê ainda um período de treinamento básico de selva com 24 dias de duração.”

A Istoé descreve, com nome e lugar, situações chocantes, como a que reproduzo aí ao lado.Podem até não ser a regra, mas existem.

A direita brasileira quer transformar o problema médico em ideológico. E a Folhaatua com a mesma cabeça elitista que a mídia brasileira e as cúpulas das instituições médicas: as pessoas que precisam de assistência e não têm médico que se lixem.

Porque reduzem tudo à exploração política. E agem com má-fe, porque não informam sequer que isso é um plano antigo. Quando José Serra, no Ministério da Saúde, foi buscar médicos cubanos para atuar no Brasil, não houve escândalo, manchetes ou passeatas.

Isso no ano 2000!

Treze anos depois, quantas pessoas morreram por falta de médicos? Quantas tiveram seu estado de saúde agravado por não contarem com uma assistência primária? Quantas lotaram os poucos centros médicos disponíveis, depois de serem levadas por centenas de quilômetros?

A Istoé faz uma metáfora:

“(…)como sabe qualquer pessoa que já sofreu um acidente de automóvel, um enfarto dentro de um avião ou enfrentou imprevistos semelhantes, ninguém pergunta pelo diploma de um médico que estiver por perto”

O que o pensamento elitista no Brasil não consegue entender é que, mesmo que o nosso avião continue tendo primeira e segunda classe, somos um só avião e o pessoal da traseira tem direito a ser atendido pela tripulação. Inclusive quando passa mal.

Essas pessoas parecem não importar à Folha.

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