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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Daime: uma droga que não tem nada de santa



Jornal do Brasil

RIO - O assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas, de 53 anos, e de seu filho Raoni Ornellas Vilas Boas, de 25, por Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24, no dia 12 de março, pôs na berlinda o uso de uma bebida alucinógena, chamada de Santo Daime, usada em rituais que misturam elementos cristãos e pagãos, e que é tomada regularmente por milhares de pessoas no país. Carlos, que apresentava sintomas de esquizofrenia, tomava a bebida regularmente há três anos, justamente na igreja criada pelo cartunista, a Céu de Maria, que funcionava em Osasco, na região metropolitana de São Paulo. No dia do assassinato, se dizia a reencarnação de Jesus Cristo.

O Rio de Janeiro, que se tornou um dos principais pólos do consumo da bebida em todo o país, conheceu a doutrina do Daime em 1982, através do psicólogo Paulo Roberto Silva e Souza. Aproximadamente 200 pessoas frequentam periodicamente os encontros da Igreja Ceú do Mar, localizada em São Conrado (Zona Sul). Somente na comunidade da igreja no Orkut (site de relacionamentos) existem aproximadamente 1.500 membros.

Um soldado da Marinha brasileira, de 25 anos, que preferiu não se identificar por temer sofrer retaliações, mesmo considerando a instituição liberal, contou como foi apresentado ao Daime. De acordo com o militar, que afirmou jamais ter consumido algum tipo de droga, aos cinco anos de idade sua mãe o levou a um culto e ele bebeu o chá de Santo Daime.

– Desde novo, essa é minha válvula de escape. Jamais apresentei algum tipo de sintoma ou problema. Já vi muita gente que foi livrada de vícios pelo Daime, deixando de beber e até cheirar cocaína – disse ele, que acredita que o chá de Santo Daime não teve nenhuma influência no assassinato de Glauco, apesar de ter confessado ficar nervoso e tenso após mais de três semanas sem tomar a bebida.

O dono de uma loja, que frequenta cultos do Santo Daime na Flor da Montanha, em Friburgo, Região Serrana do estado, esclareceu que a ingestão da bebida é uma forma de atingir “níveis mais altos de reflexão”.

– Sob efeito do chá, penso em coisas que jamais passariam pela minha cabeça. É uma forma de refletir sobre meus atos e agradecer pela minha vida – divagou.

Liberação da bebida é controversa no país

O Santo Daime, desde que ganhou adeptos em todo o país, virou também polêmica política. Em 2003, o Ministério da Justiça divulgou parecer Técnico nº 001/2002 incriminando o uso legítimo do chá Hoasca (Ayahuasca) – o nome científico do Daime. No mesmo ano, o Ministério de Relações Exteriores determinou o cancelamento do registro de marcas e patentes de vários produtos biológicos da Amazônia, entre eles o Ayahuasca. As duas medidas foram alvo de requerimento de informações de deputados. Em 2006, a Secretaria Antidrogas do governo promoveu um seminário para debater o efeito do chá.

A dimetiltriptamina, princípio ativo do Santo Daime, é uma substância proibida na maioria dos países, inclusive no Brasil, que é signatário da Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas da Organização das Nações Unidas. Porém, a convenção não inclui como proibida plantas ricas nesta substância, como a erva-rainha ou ayahuasca, como é conhecida por tribos indígenas da Amazônia.

Bebida potencializa doença psíquica

O uso de alucinógenos, como o Santo Daime, no caso de indivíduos que os psiquiatras classificam como “vulneráveis”, com tendência à depressão, à esquizofrenia ou à psicose, aciona o gatilho para o surgimento ou o agravamento da doença, que pode estar adormecida, em estado latente, ou com poucas manifestações. No caso de Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o assassino do cartunista Glauco Vilas Boas, o rapaz mostrava sinais de esquizofrenia: ele acreditava ser a reencarnação de Jesus Cristo.

– Na esquizofrenia, o sujeito acredita em fatos que não fazem sentido. Pode acreditar, por exemplo, que é outra pessoa, ou que tem uma missão especial – diz o psiquiatra Carlos Salgado, presidente da Associação Brasileira de Estudo do Álcool e outras Drogas.

O Santo Daime contém a substância alucinógena dimetiltriptamina, que torna mais graves casos pré-existentes de esquizofrenia.

– E, embora o efeito agudo da droga dure cerca de 24 horas, o usuário pode ter o que se chama flashbacks dias depois de ingerir a substância – comenta Carlos Salgado.

A esquizofrenia é uma doença hereditária. A mãe de Carlos Eduardo tinha diagnóstico da doença, assim como a tia-avó do rapaz. Em linhas gerais, a esquizofrenia consiste numa alteração no equilíbrio de neurotransmissores no cérebro, especialmente, a dopamina, explica Analice Gigliotti, psiquiatra-chefe do Setor de Dependência Química da Santa Casa da Misericórdia, no Rio.

Segundo ela, os alucinógenos, como o Santo Daime, agem justamente sobre os receptores dopaminérgicos do cérebro, potencializando este desarranjo químico:

– Tomar o Santo Daime acentua a desorganização cerebral. E faz até com que remédios antipsicóticos tenham efeito atenuado ou mesmo anulado.

Tanto Analice Gigliotti como Carlos Salgado frisam que desconhecem o, digamos. prontuário médico de Carlos Eduardo, e que, portanto, não podem afirmar realmente que ele tinha esquizofrenia – ou só esquizofrenia.

– Ele nunca havia matado antes. Pode ter havido outras variáveis que o levaram ao crime – diz Salgado.

– Mas é evidente que ele matou porque estaca fora do seu juízo – completa Analice.

Carlos Eduardo, assassino confesso do cartunista Glauco, tem o perfil de um esquizofrênico e a maior evidência disso era o fato de se considerar a reencarnação de Jesus Cristo. Filho de uma família de classe média alta de São Paulo, era usuário de maconha, segundo seus próprios parentes informaram à imprensa. Nos últimos três anos, vinha tomando o Santo Daime nos rituais da igreja Céu de Maria fundada pelo cartunista assassinado. Em depoimento à polícia, o rapaz disse ter bebido o chá todas as vezes em que participou dos rituais.

Segundo Carlos Grecchi, pai do assassino confesso, o filho vinha mostrando um comportamento alterado desde quando começou a frequentar os rituais. O rapaz não aceitou ser tratado numa clínica psiquiátrica.

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