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domingo, 18 de novembro de 2012

A xerife da educação


José Maria e Silva-Jornal Opção

A mulher, aparentando uns 35 anos, a­jeita constantemente os óculos, entre doutoral e displicente, como se estivesse prestes a encarnar a Verdade, mas com sabedoria, sem imposição, mediante um convencimento despretensiosamente sedutor. O cenário revela uma nesga de estante em que livros esparsos perfilam entre motivos infantis. A primeira palavra que pronuncia é “gente”, como quem não quer nada, mas o vocativo informal não esconde o tom de pronunciamento ao mundo, motivado pelas redes sociais, que transformam em questão de Estado qualquer papo de botequim. Em seguida, ela explica que resolveu gravar o vídeo ao ver no Facebook a página de uma menina de 13 anos que fala dos problemas na escola pú­blica onde estuda e que se queixa dos colegas de classe por não apoiarem sua iniciativa de tentar melhorar a escola através das denúncias pela internet.

A mulher — que é designer gráfica e formada em artes plásticas pela USP — refere-se ao “Diário de Classe”, da estudante Isadora Faber, de Florianópolis, que virou a mais nova celebridade do país. Não cito o nome da mu­lher para poupá-la de si mes­ma, pois sua fala é constrangedora, tratando-se de uma pessoa adulta que se dirige a uma criança. Neste vídeo-manifesto datado de 27 de agosto último, ela diz: “Isadora, as pessoas não entendem o que você faz porque para cada pessoa como você no mun­do, nascem 100 idiotas, que não têm um pingo de senso coletivo, que não sabem o que é se preocupar de forma saudável com o que está ao seu redor, com as pessoas, com o planeta que está sofrendo”. E acrescenta: “Elas não entendem o seu empenho, a sua preocupação, e eu acho que por você ter essa mente tão evoluída, essa mente tão bonita, tá fazendo uma coisa tão legal”. E enfatiza: “Superapoio a tua fanpage. Superapoio o que você está fazendo”.

Faço questão de reproduzir essa fala porque ela reflete o tom laudatório com que as redes sociais e os meios de comunicação acolheram o “Diário de Clas­se” desde a sua criação em 11 de julho último. “Eu Isadora Faber que tenho 13 anos, estou fazendo essa página sozinha, para mostrar a verdade sobre as escolas públicas. Quero melhor não só pra mim, mas pra todos”, diz a aluna da Escola Básica Mu­nicipal Maria Tomázia Coelho, localizada na Praia do Santinho, em Florianópolis. A postagem de estreia traz uma foto com a se­guinte legenda: “Essa é a porta do ‘banheiro feminino’ da nossa escola que fica no santinho. Nem fechadura tem!!!” Outras fotos foram postadas no mesmo dia, mostrando um vaso sanitário sem tampa, dois bancos quebrados no refeitório, a fechadura desgastada do portão de entrada e a fiação precária do ventilador da sala onde a menina estuda. Um vídeo que mostra banheiros e corredores na hora da aula completa o primeiro dia do “Di­ário de Classe”.

Tribunal de professores

Não demorou muito para que o “Diário de Classe” se tornasse um sucesso na internet e sua autora virasse uma celebridade, sendo usada como exemplo do poder das redes sociais. Mas como sempre acontece com as glórias virtuais, o diário da menina só passou a existir de fato ao ser descoberto pelos jornais, rádios e televisões, ou seja, os meios de comunicação convencionais, o que deve ter sido facilitado pelo fato de os pais de Isadora Faber serem produtores de vídeo. Numa postagem de 5 de agosto, menos de um mês após a criação da página, a menina, com um português precário, já anunciava textualmente: “E sim vamos dar um jeito de levar pra mídia mais (sic) precisamos da ajuda de vocês para deixar mais conhecido ainda, precisamos de publicidade antes, e mesmo que não consigamos mais do que já temos não vamos pensar em desistir de fazer justiça, quero ver qual é o vereador que vai prometer arrumar a escola e se ganhar, realmente vai cumprir os combinados, o que nunca aconteceu”.

Provavelmente, seus pais já estavam entrando em contato com a imprensa, pois, em 14 de agosto, na página 2 do “Diário Catarinense”, apareceu a seguinte nota: “Duas alunas da Escola Básica Mu­nicipal Maria Tomázia Coelho, da Praia do Santinho, em Floripa, criaram uma página no Facebook para mostrar problemas como fiação e maçanetas quebradas e também as melhorias feitas no colégio. O título é ‘Diário de Classe’. Acesse e confira”. Como se vê, ainda não havia nenhum fato para catapultar na imprensa o “Diário de Classe” (afinal não faltam vídeos no You Tube mostrando problemas muito mais graves em escolas, inclusive brigas de alunos), mesmo assim, o “Diário de Classe” foi noticiado na página 2 do maior jornal de Santa Catarina, da Rede RBS. Quem conhece a imprensa sabe que dificilmente se consegue uma nota em espaço nobre de jornal sem haver um fato que a justifique, a não ser tendo influência com algum editor.

Mas o “Diário de Classe” provavelmente cairia no es­quecimento caso se limitasse a denunciar maçanetas quebradas e ventiladores estragados. Em todo ambiente com grande movimento de pessoas é praticamente impossível manter tudo arrumado durante todo o tempo. Em qualquer escola pública do país, por mais bem-cuidada que seja, é sempre possível encontrar problemas idênticos aos denunciados pela estudante catarinense, cuja escola tem 632 alunos. Esse assunto, de tão recorrente, logo perderia o interesse. Isadora Faber conseguiu passar dos 15 minutos de fama não pelos supostos bons serviços prestados à escola, mas pelas profundas desavenças que acabou criando na comunidade escolar. O espaço que começou como um fórum para reivindicar melhorias na estrutura do estabelecimento logo se transformou num tribunal para julgar sumariamente o desempenho dos professores.

A primeira vítima



A primeira vítima do “Diário de Classe” foi o professor de matemática Aloisio José Battisti, que havia sido contratado pela escola, como professor substituto, em 19 de agosto de 2011. No dia 10 de agosto último, quando sua página no Facebook estava pres­tes a completar um mês, Isadora contou que, na aula de matemática, o professor bateu na mesa pedindo silêncio, mas os alunos começaram a imitá-lo, aumentando a bagunça. Ela começou a filmar a balbúrdia, seus colegas perceberam e alertaram o professor. Os pais de Isadora e de sua colega Melina Santos (que dividiu com ela os primórdios da página) foram chamados à diretoria. Segundo relato da própria Isadora, a diretora disse que nada tinha contra a página das alunas no Face­book e só pediu que fosse retirado o vídeo para não expor a imagem do mestre. Mas a Secretaria Municipal de E­ducação de Florianópolis — num primeiro sinal de completo despreparo – afastou de imediato o professor.

Quem conhece a educação brasileira, especialmente a educação pública, sabe que a disciplina deixou de ser um atributo decorrente da autoridade institucional da escola para se tornar mera dádiva dos alunos. Se eles resolverem anarquizar a escola, só Deus para impedir. O Estatuto da Criança e do Adolescente faculta ao aluno fazer o que bem entender, inclusive espancar o professor, como frequentemente acontece e fica por isso mesmo. Hoje, só se consegue alguma ordem na escola com o aliciamento dos alunos indisciplinados, seja por meio da autoridade amiga de um professor carismático, seja por meio de regalias propiciadas pela direção da escola aos alunos infratores, a exemplo do que as autoridades prisionais costumam fazer com o PCC e o Comando Ver­melho. E se o professor é um subs­­tituto, com pouca experiência e conhecimento dos alunos, torna-se ainda mais difícil obter disciplina. Mesmo na rígida es­cola primária do passado, as classes costumavam ficar de pernas para o ar sob a regência um professor substituto.

Por isso, a Secretaria de Educação de Florianópolis foi precipitada ao demitir o professor Aloisio José Battisti já no dia 30 de agosto, menos de 20 dias depois da postagem de Isadora Faber. O professor Battisti é graduado em matemática pela Universidade Federal de Santa Catarina e, como requisito para a conquista do diploma, apresentou em 2002 a monografia “Equações Diferenciais Apli­cadas em Escoamento de Flu­ídos”, com 54 páginas, sob a orientação do professor Sergio Eduardo Michelin, mestre em Física pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutor em Química pela Universidade Fe­deral de São Carlos, com dezenas de artigos científicos publicados, inclusive em revistas internacionais. Se para avaliar um professor, o celular de uma única adolescente vale mais do que o mestrado e o doutorado de duas grandes universidades federais, então para que gastar dinheiro com pós-graduação? Que se fechem as instituições de ensino superior do país e se dê um celular para cada aluno vigiar e punir o mestre. Fica mais barato.

Escola dividida

Ao mesmo tempo em que o professor de matemática foi humilhado e demitido pelo celular de Isadora, a Secretaria de Educação de Florianópolis escalou uma verdadeira força-tarefa para consertar todos os estragos apontados pelo “Diário de Clas­se”. Em reportagem do “Fan­tástico” de 2 de setembro, a secretária Sidneya Gaspar de Oliveira afirmou a respeito de Isadora: “É uma criança que está exercendo plena cidadania. Nós precisamos de muito mais alunos com esse mesmo ideal, com essa mesma atitude”. E na página oficial da secretaria, em matéria publicada no dia 28 de agosto, a secretária classificou como “brilhante” e “saudável” a iniciativa da menina e declarou: “Essa página veio inclusive nos auxiliar no monitoramento da escola. É uma espécie de ouvidoria”. É como se a pasta que administra não tivesse um cronograma de obras e trabalhasse sob a demanda da mídia, insuflada por uma menina de 13 anos.

A irresponsabilidade da secretária de Educação de Flo­ria­nópolis, no intuito de agradar a mídia, chegou a promover a hu­milhação da diretora da escola, Liziane Diaz Farias, que, segundo a mesma matéria oficial, “assumiu a responsabilidade por haver em sua escola uma gestão deficitária”, declarando textualmente: “Eu assumo publicamente que ocorreu fragilidade na administração do estabelecimento. Vamos a partir de agora trabalhar de forma diferente a parte administrativa e a preservação do patrimônio público”. Se fosse verdade o que a diretora se viu pressionada a dizer, ela teria que ser exonerada. Onde já se viu um gestor público confessar que só descobriu problemas em sua administração e resolveu mudá-la radicalmente depois de alertado por uma criança? A secretária de Educação de Florianópolis, Sidneya Gaspar de Oliveira, teria sido mais coerente se tivesse pedido demissão do cargo e indicado a menina Isadora para assumir o comando da pasta.

Poucos dias depois, as autoridades educacionais perceberam que tinham criado um monstro ao se render às exigências do “Diário de Classe”. A Escola Maria To­mázia ganhou maçanetas novas, mas perdeu a paz. Como não poderia deixar de ocorrer, os professores passaram a se sentir vigiados pela aluna de 13 anos, transformada nos olhos da mídia brasileira a devassar a escola. O próximo entrevero de Isadora Faber foi com sua professora de português, que, numa atitude condenável, registrou boletim de ocorrência contra a autora do “Diário de Classe”, consolidando ainda mais sua visibilidade nacional. Ao mesmo tempo, Isadora começou a cobrar de um pintor, pai de uma aluna, a pintura da quadra pela qual ele já havia recebido pagamento. Esse caso gerou ameaças de agressão entre os pais das duas alunas, a casa de Isadora foi apedrejada, sua avó acabou ferida e novos boletins de ocorrência, de parte a parte, foram registrados na polícia.

A escola ficou dividida entre os que defendem Isadora e os que a condenam, e a menina vem sendo levada às aulas pelos pais, devido às ameaças que enfrenta. Desde então, a direção da escola vem promovendo atos cívicos com alunos e professores, tentando trazer um pouco de paz para o ambiente de guerra que impera na escola. Surgiram páginas de alunos e funcionários da escola tentando mostrar o que chamam de “outro lado” do “Diário de Clas­se”, às vezes ressaltando aspectos positivos da escola, outras vezes criticando a família de Isadora Faber. E a Secretaria da Educação de Florianópolis, tentando remendar o estrago, passou a divulgar a boa nota obtida pela escola no Ideb (6,1 pontos), o que a coloca entre as melhores escolas públicas do país. Tardiamente, a Se­cretaria de Educação tenta fazer o que deveria ter feito desde o início: ouvir e respeitar a comunidade escolar como um todo e não render-se de imediato à visão unilateral do “Diário de Classe”, co­mo se uma menina de 13 anos tivesse a solução para todos os problemas do ensino.

Demagogia de jornalista

Comparando as primeiras postagens do “Diário de Clas­se” com as postagens atuais, percebe-se que de desabafo despretensioso de adolescente, que sonhava com 100 seguidores, como ela mesma confessou ao “Estadão”, a página tornou-se um empreendimento de celebridade, cada vez mais gerido pelos pais de Isadora, o engenheiro agrônomo Christian Faber, dono de uma bem-sucedida produtora de vídeos, e a mãe Diamela Leal Faber. Em 1º de novembro, o “UOL Educação” pu­blicou um excelente perfil da família, assinado por Renan Antunes de Oliveira, em que o repórter conta que os Faber são de origem alemã, descendentes dos fundadores da fábrica de lápis Faber-Castell. Para a estratificação social petista, que considera classe alta quem ganha acima de R$ 1.019, a família de Isadora é simplesmente milionária: tem ampla casa na praia com piscina e a mãe tem um Mercedes Benz na garagem. Classe mé­dia alta, para os padrões reais, não petistas.

Segundo o perfil do UOL, o pai de Isadora “parece ressentido com a falta de retorno financeiro da aventura da filha”: “Jamais ganhou um tostão” — diz. Mas, além da fama, ela ganhou um curso de inglês e um notebook novo, doado por ninguém menos do que o jornalista Gilberto Di­menstein — que nunca perde a chance de fazer demagogia politicamente correta com a educação. Com isso, o idealismo de Isadora vai sendo gasto indevidamente por terceiros. Não é papel de criança ou adolescente brigar por me­lhorias estruturais e pedagógicas em escola, até porque lhes falta experiência de vida para tanto. Quem deve corrigir os problemas do mundo de hoje são os adultos. No tempo de seus pais, a criança deve é estudar; caso contrário, quando se tornar adulta, ela estará despreparada para resolver os problemas de seu próprio tempo.

As primeiras postagens do “Diário de Classe” apresentam um português ruim para uma aluna de 13 anos que está quase entrando no segundo grau e ainda por cima quer ser jornalista. Mesmo descontando a inegável culpa da pedagogia construtivista, que ignora a gramática e não corrige a ortografia do aluno, há erros imperdoáveis em seu texto. Antes da revisão de seus pais no diário (admitida por ela própria quando a iniciativa lhe trouxe problemas), Isadora escrevia “mais” toda vez que queria usar a conjunção adversativa “mas”. Numa postagem de 31 de julho, em que re­preende seus professores, ela incorre três vezes no erro: “Al­guns professores falam que é a pior profissão do mundo, mais se eles ficarem parados da no mesmo porque estão recebendo de qualquer jeito. Por favor se não gosta da profissão muda, mais agora ficar parado encostado na porta só faz com que a nossa vida piore e atrase. Isso sim é ruim ver o tempo passar e saber não vou aprender e vou passar de ano, pra alguns é muito bom mais co­migo não é por ai não, ensina ou muda de profissão. Eu a­cho isso”.

Os melhores alunos nessa idade, com um mínimo de leitura, não costumam incorrer nesse tipo de erro. No caso de Isadora, o erro se torna imperdoável, pois os adultos de sua família têm curso superior. Além disso, como o diário pas­sou a ter mais im­portância na sua formação do que a própria escola, os seus pais têm o dever de exigir esmero na redação do mes­mo, contribuindo para o a­perfeiçoamento de seu português. Caso contrário, a menina pode se julgar maior do que é. A mídia já contribui para isso e seus milhares de leitores também. Isadora tem até uma aluna médica, que está aprendendo com ela como fazer um Facebook semelhante ao “Diário de Classe” só que na área da saúde. Um caso para o Con­selho Federal de Medicina examinar e, no mínimo, advertir a profissional. Quem teria coragem de depositar a própria vida nas mãos de uma médica que, em vez de em­pregar o tempo livre na leitura de tratados científicos, prefere se fazer pupila de uma simples criança?







Em todas as entrevistas de Isadora, nenhum repórter se interessou em saber que livros ela já leu, se tem preferência por algum escritor, se gosta mesmo de escrever ou só se interessa pela pichação das redes sociais. É incrível como essa menina foi transformada em xerife da educação brasileira sem que se dê a menor importância para sua formação. Seu Facebook também não ajuda muito: não vi ne­nhum vestígio de livro por lá. É triste ver a mente de uma criança talentosa ocupada apenas com fotos diárias de merenda e maçanetas quebradas. Os pais de Isadora deviam incentivá-la a tirar pelo menos um dia de folga da militância para postar comentários sobre um livro que está lendo, um poema de que gostou, de preferência sem relacioná-los com as desavenças que enfrenta, como faz com as canções que lhe são enviadas, a exemplo da música “Apesar de Você”, de Chico Buarque, que ela dedicou à direção e à coordenação da escola em que estuda.

Há crianças e adolescentes brilhantes pelo país, alguns disputando olímpiadas internacionais de conhecimento, mas a imprensa pouco se importa com eles. Pre­fere transformar em oráculo uma aluna que se notabiliza pela militância da reclamação, não por culpa dela própria, mas por influência dos adultos que a cercam. Nas redes sociais, uma montagem chega a colocar a menina Isadora Faber ao lado do ministro Joaquim Barbosa, como os dois grandes heróis brasileiros. O risco é que a pobre criança acredite que pode mudar sozinha o mundo e, ao perceber que isso não é possível, se torne mais descrente do que seria se nunca tivesse mergulhado tão profundamente nas mazelas humanas. É natural e muito salutar que todo jovem seja um sonhador e acredite na salvação da humanidade. Mas Isadora é muito mais do que uma simples sonhadora — ela é uma ativista. E estão colocando o peso do país em seus ombros.

Prova disso é que, no início da tarde de sexta-feira, 16, ela postou um agradecimento a toda a polícia de Santa Catarina, em seu nome e no nome de sua família, e conclamou a população a não se omitir e fazer a sua parte pela segurança de todos: “Quem puder ajudar de alguma forma, por favor, não se omita, faça sua parte, denuncie, todos temos que fazer nossa parte, é pra segurança de todos. Tenho certeza que a ordem voltará e esses terroristas serão pegos e devidamente punidos. Confiamos no serviço da Polícia. Muito obrigada mesmo”.

Será que a família Faber pensa que sua filha menor de idade é governadora dos catarinenses, presidente dos brasileiros ou ministra do STF? Qual a razão de usarem o “Diário de Classe” para tratar de um assunto tão grave, que nada tem a ver com ele? Essa atitude pode pôr em risco a própria segurança da menina, já que ninguém conhece os limites dos criminosos, a quem ela chama de “terroristas”. A definição é correta (e me alegra saber que os pais de Isadora não pensam o contrário, ficando contra a polícia como faz a imprensa), mas essa declaração não devia estar na boca de uma criança, que precisa ser preservada desse mundo do crime. In­felizmente, apenas oito horas depois, a referida postagem já tinha sido curtida por 4.511 pessoas, compartilhada por outras 297 e recebido 373 comentários, o que estimula a transformação da estudante em celebridade.

Confesso-me constrangido de ter que comentar o caso de Isadora Faber. Ela é quase uma criança e não merece ler ou ouvir críticas de um adulto. Infe­lizmente, dada à sua exposição na mídia, é impossível analisar o caso sem falar dela. Num mundo ideal, justamente para evitar a exposição da filha e da escola, sua família teria parado com o “Diário de Classe”, assim que ele começou a dar problema. Foi o que fez a família da aluna Melina Santos, colega de Isadora, que a ajudava no início das postagens. Os pais de Melina não a deixaram continuar atuando no “Di­ário de Classe”, por entender que isso poderia prejudicá-la. Sem dúvida, um gesto de grande força moral, pois não é fácil renunciar à sedução da mídia. Os pais de Melina são os verdadeiros heróis dessa história, pois souberam dizer não.

A tirania da transparência

O caso do “Diário de Classe” revela uma profunda crise da escola contemporânea, agravada no Brasil por uma legislação que transforma em intocáveis os menores de 18 anos. Certo ou errado, o aluno menor de idade tem sempre razão e pode fazer do professor um refém de suas idiossincrasias. A pedagogia progressista destruiu a hierarquia entre adultos e crianças e um professor já não pode cobrar obediência do aluno — precisa convencê-lo, por meio do diálogo, a aceitar as regras. Como os alunos são 30, 40, 50 por sala e o professor é um só, o mestre está sempre em desvantagem. A maioria das regras de convivência humana não são logicamente explicáveis (se o fossem, seríamos robôs), logo, é impossível fazer com que 50 cabeças diferentes aceitem uma norma apenas através do diálogo. O que seria de uma grande empresa se a cada dia o gerente tivesse que convencer funcionário por funcionário a aceitar as regras que a mantêm? A empresa iria à falência, claro. Assim como a escola brasileira já foi a falência a partir do momento em que a pedagogia progressista igualou aluno e professor, anulando a autoridade do mestre.

A sociedade humana se assenta na divisão do trabalho e a escola é, por excelência, o lugar da divisão do trabalho entre adultos e jovens, em que os primeiros entram com a experiência e os segundos com a disposição para o aprendizado. E, para aprender, além da inteligência, é preciso tolerância, paciência e humildade. Quando uma criança nasce, o destino não a presenteia com os pais perfeitos e, sim, com os pais possíveis e ela tem de aprender a conviver com suas imperfeições. Na escola não é diferente. Se cada aluno se sentir no direito de pegar um celular e sair filmando toda imperfeição de cada professor, não há escola que pare de pé. E não é só a escola — nenhuma instituição se mantém viva se for objeto de semelhante devassa.

Vivendo nesse ritmo, a menina do “Diário de Classe” pode se desiludir muito jovem. O civismo militante cansa a alma. Por isso, a Bíblia recomenda que, em relação às virtudes, uma mão não deve saber o que a outra faz. A escola não pode ser transformada em “re­ality show”, com o assassinato da privacidade através dos celulares dos alunos. A escola tem de ser como a família — um lugar mais íntimo, mais reflexivo, pois as relações hu­manas que se travam nela são complexas, parecidas com as relações entre pais e filhos e entre irmãos. Já imaginaram se os alunos aplicassem aos próprios pais o método que usam com seus professores, relatando em tempo real, os amuos de seus familiares, as pequenas grosserias cotidianas que, mes­mo sem querer, praticamos com os mais próximos?

As instituições, como as pessoas, não sobrevivem sem um mínimo de privacidade. Como diz Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal”. Caso a sociedade ache correto todo aluno expor sua escola em tempo real nas redes sociais, então é preciso estender essa medida para todas as demais instituições, como Governo, Parlamento, Justiça, etc. Nenhu­ma instituição pararia de pé se víssemos, em tempo real, as vísceras de todos, inclusive as próprias. Como a perfeição não existe e nenhum ser humano é puro, as instituições só funcionam quando se sustentam no papel social que exercemos e não no ser humano que somos. E a privacidade existe para isso — não só para proteger nossa individualidade dos ataques do mundo, mas também para preservar o mundo do achaque de nossas idiossincrasias.



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